Mutirão do INSS oferece 180 vagas para perícias em Rio Branco
INSS abre agência na Avenida Getúlio Vargas neste fim de semana para acelerar liberação de benefícios como auxílio-doença e BPC no Acre.
Maria Helena Silva, 54 anos, chegou às 5h da manhã na porta da agência do INSS na Avenida Getúlio Vargas, no centro de Rio Branco. Ela levou um cadeado de plástico para garantir lugar na fila, mesma estratégia de quem procura ingresso de show, mas o objetivo dela é mais urgente: uma perícia médica que há três meses não sai do papel. Sem o atestado, o auxílio-doença que ela precisa para tratar a hérnia de disco segue suspenso.
Neste sábado e domingo (30 e 31), a história de Maria Helena se repete com outras centenas de acreanos. O INSS promove um mutirão nacional, mas na capital o foco são 180 vagas extras para perícias médicas e avaliações sociais. O telefone tocou cedo para quem aguardava na fila represada da previdência.
No Brasil todo, a força-tarefa do Ministério da Previdência Social abriu mais de 59 mil atendimentos. Aqui no Acre, a concentração é na agência central. As portas abriram às 7h30, mas a movimentação começou muito antes, com sombrinhas e cadeiras tomando a calçada ainda sob o cinza da madrugada de Rio Branco.
"Dormi um pouco de jeito nenheiro. A ansiedade não deixa", diz Maria Helena, enquanto massageia a lombar. "O médico da rede particular passou, mas o INSS precisa validar. Se não der hoje, vou ter que esperar Deus sabe quando."
Ao lado dela, João Pedro dos Santos, 42 anos, repara os cadernos de exercícios de física das filhas enquanto espera. Metalúrgico demitido no ano passado, ele sofre com tendinite nos dois punhos e não consegue mais apertar parafusos na mesma velocidade. "Hoje é a chance de pegar o auxílio. O sustento da casa tá todo em cima da minha mulher agora, e não é justo", conta ele, apontando para o relógio que marca 6h45. "Falta só um pouquinho."
Mais atrás, dona Francisca Alves, 60 anos, veio do bairro do Adventista. Ela não busca benefício para si, mas para o neto de dez anos que cria desde que a filha faleceu. A criança tem paralisia cerebral e precisa da avaliação social para o Benefício de Prestação Continuada (BPC). "É muita burocracia para quem já tem tanto sofrimento", lamenta. "Mas hoje a agência tá cheia, e isso dá esperança."
A gerência executiva do INSS no Acre informou, por meio de nota, que a ação integra o esforço para reduzir a fila de espera e dar celeridade aos processos. O mutirão permite a realização de exames periciais tanto para benefícios por incapacidade temporária quanto para a concessão de aposentadorias por invalidez e o BPC. A expectativa é que o atendimento extra desencadeie a liberação de benefícios que estavam travados justamente na etapa da prova médica.
O problema da fila de perícias não é de hoje. A pasta da Previdência reconhece que a falta de médicos peritos e o aumento da demanda pós-pandemia criaram um gargalo. Em Rio Branco, a agência da Getúlio Vargas é a principal porta de entrada, e o acúmulo de processos virou rotina nos corredores. O fim de semana de trabalho dos servidores é uma tentativa de aliviar a pressão sobre o sistema e colocar dinheiro no bolso de quem precisa pagar contas e remédios.
Quem conseguiu a vaga para este fim de semana já deve ter recebido aviso pelo aplicativo Meu INSS ou SMS. O horário de funcionamento extraordinário segue até o fim da tarde. Os servidores orientam que o segurado leve documentos originais, RG, CPF e comprovantes de residência, além de laudos médicos e exames recentes que comprovem a condição alegada. Quem tem agendamento em outro dia ou perdeu a vez no mutirão não deve tentar entrada sem senha, para não tumultuar o atendimento.
Para quem ficou fora desta leva, o caminho é seguir o acompanhamento virtual. O sistema do INSS permite que o próprio usuário verifique a data da perícia agendada. Em caso de atraso superior a 45 dias desde o requerimento, a orientação é procurar a Ouvidoria pelo número 135 ou pelo site da previdência.
Enquanto o sol começa a subir sobre o centro de Rio Branco, a fila diminui devagar. O segurança abre a porta e entrega uma senha numérica para Maria Helena. É um pedaço de papel fino, mas carrega o peso da subsistência. Ainda vai levar um tempo até o dinheiro cair na conta, mas pelo menos o carimbo de "realizado" na perícia é o primeiro passo para ela voltar a dormir tranquila.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



