Mutirão leva emissão de RG a quatro municípios isolados do interior do Acre
Polícia Civil emitiu 4 mil documentos em menos de 30 dias em cidades como Jordão e Santa Rosa do Purus; entrega já começou.
Dona Francisca de Souza, 54 anos, guardava a certidão de nascimento amassada no fundo de uma caixa de sapatos há duas décadas. Na última terça-feira, ela finalmente segurou a carteira de identidade nova na mão, sem precisar pegar um barco e viajar 30 horas até Rio Branco. Francisca mora em Jordão, um dos municípios mais isolados do Acre, no extremo oeste da Amazônia, às margens do rio Tarauacá.
Para quem vive no Vale do Juruá, o Estado muitas vezes parece morar em outro continente. Chegar à capital custa mais de mil reais em passagens de avião charter ou barcos regionais, e a viagem leva dias. Sem o RG, muita gente na região não conseguia abrir conta em banco, se aposentar no INSS ou sequer votar nas eleições. O documento era um luxo que a geografia e o dinheiro negavam.
Isso mudou nas últimas semanas. Um mutirão intenso do Instituto de Identificação da Polícia Civil do Acre atravessou a floresta e chegou até Jordão, Santa Rosa do Purus, Marechal Thaumaturgo e Porto Walter. Em menos de 30 dias, entre o início de maio e meados de junho, a equipe emitiu 4 mil Carteiras de Identidade Nacional (CIN). A ação foi logística e social: levaram máquinas digitais para quem nunca tinha visto uma biometria de perto.
“Parecia que eu não existia para o papel. Agora posso ir para outro lugar se ficar doente, posso pedir meu benefício”, conta Francisca, que agora planeja solicitar o CPF. A realidade dela se repete na casa de Seu Raimundo Nonato, agricultor em Santa Rosa do Purus. Ele foi atendido dentro de casa, deitado na rede, porque sofre de problemas de locomoção severos e não tem como chegar até a sede da prefeitura. A polícia montou uma estrutura fixa nos paços do município, mas também foi de porta em porta atender quem não podia sair.
O diretor do Instituto de Identificação, Júnior César da Silva, explicou que o desafio foi operacional. “Levamos o sertão. Fizemos tanto o atendimento nas unidades montadas quanto o domiciliar para garantir que ninguém ficasse de fora, especialmente os idosos e pessoas com deficiência”, afirma César. Para levar os equipamentos até lá, a equipe precisou pegar voos da FAB e barcos regionais, enfrentando o nível dos rios que ainda estava alto no início do mês.
A corrida contra a logística agora é na volta. A entrega dos documentos está sendo feita aos poucos. Em Jordão, 1.020 carteiras já foram devolvidas aos moradores. Em Santa Rosa do Purus, foram 900 entregues. Neste último município, porém, a polícia avisou que cerca de 100 atendimentos ficaram pendentes. São casos em que faltou algum dado civil ou a conferência da digital não funcionou bem na primeira tentativa — esses moradores vão precisar aguardar uma nova correção dos dados para emitir o documento.
Em Porto Walter e Marechal Thaumaturgo, a ansiedade é maior. Os documentos já estão impressos e prontos em Rio Branco, mas a volta dos agentes com a papelada depende da disponibilidade de transporte fluvial e aéreo na região. O diretor garante que a distribuição deve ocorrer nos próximos dias, assim que as condições climáticas permitirem o pouso das aeronaves ou a travessia segura das embarcações.
O Acre é hoje o estado com a maior porcentagem de emissões da nova carteira na Região Norte. Para Dona Francisca, em Jordão, a estatística oficial significa que ela agora tem nome completo e sobrenome garantido no papel. Ela guarda o plástico agora com cuidado, protegido da umidade da floresta.
Moradores de Jordão e Santa Rosa do Purus que ainda não receberam o documento ou tiveram a emissão negada por pendência de dados devem procurar a secretaria de administração local ou o posto da Polícia Civil do município. Em Rio Branco, o Instituto de Identificação fica na Rua Benjamim Constant, centro, e o telefone para consultas gerais sobre a CIN é o (68) 3223-3278.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



