Operação da FAB realiza 11 mil atendimentos gratuitos em Itacoatiara
População de Itacoatiara teve acesso a consultas, exames e remédios em quatro dias de ação no porto da cidade; próxima etapa é em Parintins.
Dona Francisca da Silva, 54 anos, sentou no banco de plástico do cais do porto de Itacoatiara ainda com o sol rasteiro de quinta-feira. A camisa amassada e o chinelo de dedo mostravam a pressa de quem saiu de casa antes do café para garantir um lugar na fila. Ela vinha atrás de uma consulta no dentista — o dente doía há meses —, mas saiu no fim da tarde com o problema resolvido e um saco de remédios no colo. "Eu esperava isso há três anos. Lá no posto demora demais, e descer até Manaus é dinheiro que eu não tenho", contou ela, ainda anestesiada.
O estacionamento do Porto de Itacoatiara virou, por quatro dias, um hospital de campanha a céu aberto. A Força Aérea Brasileira (FAB) montou o posto para a Operação Excelsior 2026, trazendo equipamentos e militares para atender quem vive às margens do rio e raramente vê um especialista. A prefeitura cedeu o espaço e a logística local, organizando as filas que, segundo moradores, chegavam a ocupar duas quadras da avenida beira-rio.
Em quatro dias de ação, o balanço final da FAB aponta 11.320 procedimentos feitos de graça. Não era apenas consulta rápida: a lista incluiu 2.325 triagens, 1.355 atendimentos odontológicos — o mais procurado —, 917 atendimentos na farmácia e 2.137 medicamentos distribuídos no ato. Para quem enxerga pouco, a novidade foram os 738 exames oftalmológicos realizados, com entrega de receita para óculos na hora. Ao todo, foram 9.257 atendimentos clínicos e 2.063 exames diversos.
O agricultor Raimundo Nonato, 39 anos, foi um dos que aproveitaram a oftalmo. Ele conta que a visão embaçada estava atrapalhando o serviço na roça e, principalmente, o cuidado com o barco. "Tava perigoso guiar o barco no escuro com o olho assim", disse Raimundo, mostrando a carteirinha do SUS e o formulário preenchido pelos militares. Ele garantiu que saiu de lá com o encaminhamento correto e a receita em mãos.
A operação contou com cerca de 240 militares trabalhando em turnos para dar conta da demanda, que superava mil pessoas por dia, segundo o comunicado oficial da FAB. A ideia da Excelsior é justamente essa: levar a assistência do Estado para onde o rio leva tempo demais e onde a rede pública local está sobrecarregada. Em Itacoatiara, a rede municipal de saúde sofre com a falta de especialistas, obrigando a população a depender de referências na capital, que fica a 176 quilômetros de distância.
Agora que a última tenda foi desmontada ontem à noite, o foco muda de endereço. A operação não para: os militares já seguiram viagem rio abaixo. A próxima parada é em Parintins. Lá, os atendimentos começam no dia 1º de junho e vão até o dia 6. A prefeitura da ilha ainda deve divulgar os locais exatos, mas a expectativa é de filas ainda maiores, dada a dimensão da população ribeirinha que deve se deslocar até a sede municipal.
Depois de Parintins, a comitiva atravessa o rio para o outro lado, chegando em Oriximiná, no Pará. As datas lá são entre 10 e 12 de junho. Quem perdeu a vez em Itacoatiara e não pode ir até Parintins, a recomendação é procurar a Unidade Básica de Saúde mais próxima ou ligar para o 160 para tentar agendamento na atenção especializada.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



