Polícia de RR usa inteligência dos EUA para rastrear criptos do Tren de Aragua
Operação apreendeu dólares e uma Porsche e bloqueou ativos digitais da facção venezuelana. Tecnologia de blockchain permitiu rastrear capitais de venda de armas.
A Polícia Civil de Roraima cumpriu, na manhã desta terça-feira (16), uma série de mandados judiciais em cinco estados brasileiros e no território roraimense para desarticular um esquema de lavagem de capitais vinculado à facção venezuelana Tren de Aragua. A operação, autorizada pela 1ª Vara Criminal de Boa Vista, contou com o emprego de tecnologia forense digital avançada fornecida por uma empresa de inteligência dos Estados Unidos para rastrear e bloquear criptomoedas utilizadas pela organização criminosa.
Conforme apurado pelos investigadores da Delegacia Especializada em Crimes contra a Ordem Tributária (Decot), a facção utilizava a tecnologia blockchain para ocultar a origem de valores obtidos com o tráfico de armas pesadas para o Comando Vermelho (CV) no Rio de Janeiro. O rastreamento dos ativos digitais foi realizado por meio da plataforma Chainalysis, ferramenta líder global em inteligência de transações de criptoativos, que permitiu aos peritos "desanonimizar" as movimentações financeiras e identificar as carteiras virtuais controladas pelos integrantes do grupo.
A tecnologia blockchain funciona como um livro-razão distribuído e imutável. Embora as transações sejam públicas, a identidade dos donos das carteiras é protegida por chaves criptográficas. A atuação da Chainalysis permitiu que os peritos cruzassem esses registros públicos com dados de 'know-your-customer' (KYC) das exchanges de criptomoedas e informações de inteligência humana, revelando a titularidade dos recursos que movimentaram milhões de reais nos últimos meses.
A investigação, que tramita sob sigilo em inquérito instaurado em meados de 2024, revelou a existência de uma estrutura financeira complexa que operava como um "câmbio de garimpo". A organização adquiria criptoativos com dinheiro em espécie, oriundo da venda de fuzis e coletes balísticos, e realizava conversões para moedas fiduciárias ou ativos de alto valor, como veículos de luxo, para dificultar a rastreabilidade. Durante os cumprimentos dos mandados, uma Porsche foi apreendida, juntamente com uma quantia expressiva em dólares americanos, que seriam utilizados para novas transações ilícitas na tríplice fronteira.
A integração logística entre o Tren de Aragua e o Comando Vermelho tem sido monitorada pelas autoridades federais e estaduais. A venda de armas, muitas vezes desviadas de forças de segurança venezuelanas ou oriundas do mercado negro internacional, financia as operações da facção em solo brasileiro, onde disputam o controle de pontos de venda de drogas e rotas de contrabando. O bloqueio das criptomoedas visa cortar o combustível financeiro dessa aliança criminosa.
O uso da tecnologia de inteligência americana representa um marco na atuação policial contra o crime organizado na região Norte. A cooperação técnica permitiu contornar a suposta inviolabilidade das transações descentralizadas, cruzando dados de blockchain com informações de inteligência financeira sobre o modus operandi do Tren de Aragua. A facção, que tem base em presídios venezuelanos, expandiu suas operações para Roraima, atuando no tráfico de migrantes, exploração sexual e contrabando, utilizando o estado brasileiro como rota logística para o restante do país.
Segundo o delegado responsável pela operação, o foco da ação foi o sequestro de bens e o bloqueio de ativos financeiros para atingir o poder econômico da facção, uma estratégia que tem se mostrado mais eficaz do que a prisão pontual de membros da base hierárquica. Os mandados cumpridos nesta terça foram expedidos com base na Lei de Lavagem de Dinheiro (Lei 9.613/98), tipificando os crimes de gestão fraudulenta e evasão de divisas.
As investigações apontam que o fluxo financeiro não se limitava à fronteira amazônica, mas atingia redes de lavagem em estados do Sudeste, onde os recursos eram transformados em bens lícitos. A Polícia Civil de Roraima atua em conjunto com o Ministério Público Estadual e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para mapear os integrantes da rede de lavagem que operavam fora do território roraimense.
Procurada, a defesa dos investigados não foi localizada até o fechamento desta matéria. O inquérito segue tramitando na 1ª Vara Criminal de Boa Vista, onde se aguarda o parecer do Ministério Público sobre a necessidade de novas medidas cautelares, incluindo a prisão preventiva dos identificados como operadores financeiros do esquema.
Diego Câmara
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



