PF cumpre mandados contra tráfico de mercúrio para garimpo no Amazonas
Ação investiga fornecimento de insumo químico para extração ilegal; apuração começou após apreensão de 50kg da substância.
A Polícia Federal deflagrou na manhã desta terça-feira (2) a Operação Azougue em Manaus para cumprir dois mandados de busca e apreensão contra suspeitos de integrar uma organização criminosa voltada ao contrabando e distribuição de mercúrio para garimpos ilegais no Amazonas. A ação, coordenada pela Superintendência da PF no estado (SR/DPF/AM), busca coletar provas documentais e digitais que liguem os alvos à logística de tráfico do insumo químico, utilizado indiscriminadamente em áreas de extração mineral não autorizadas.
Segundo apurou a investigação, iniciada em abril de 2025, a rede atua na importação clandestina e subsequente entrega do mercúrio a garimpeiros que atuam em regiões de fronteira e terras indígenas. Dois investigados, identificados pelas iniciais R.S., de 45 anos, e M.F., de 32 anos, figuram como alvos prioritários da operação desta terça. Eles são investigados pelos crimes de contrabando descrito no Artigo 334 do Código Penal e por infrações ambientais previstas na Lei 9.605/98, referentes ao transporte de substância tóxica.
O ponto de virada das investigações ocorreu em abril do ano passado, quando a PF realizou a apreensão de dois recipientes contendo cerca de 50 quilos de mercúrio metálico em uma fiscalização de rotina. A partir da análise da carga e daquele transporte, os peritos do Instituto Nacional de Criminalística (INC) e os delegados conseguiram traçar a rota logística empregada pela quadrilha. A polícia identificou que o produto entra na capital amazonense e é fracionado para ser enviado via fluvial ou rodoviária para polos garimpeiros no interior, onde o controle estatal é mais escasso.
Durante a Operação Azougue, agentes cumpriram os mandados em endereços na zona leste de Manaus, áreas investigadas como pontos de estoque e gerenciamento da quadrilha. A polícia busca apreender telefones celulares, planilhas de controle financeiro e contratos de transporte que comprovem a movimentação financeira ilegal. O tráfico de mercúrio tornou-se um dos focos da segurança pública federal na Amazônia devido ao alto potencial de degradação ambiental e à conexão com outros crimes transfronteiriços.
De acordo com o relatório circunstanciado que embasa os mandados, o mercúrio é utilizado para a amalgamação do ouro, processo que separa o metal precioso de outras partículas, mas contamina rios e peixes com metilmercúrio, uma neurotoxina potente. O Brasil é signatário da Convenção de Minamata, acordo global que prevê o fim do uso do elemento em extração mineral, o que reforça a atuação da PF no combate ao comércio ilegal.
A investigação aponta ainda que a quadrilha utiliza empresas de fachada e transportadoras de carga regulares para mascarar a movimentação do produto, dificultando a identificação em barreiras policiais. A expertise da PF em inteligência financeira foi fundamental para levantar indícios de que os valores movimentados não correspondem à atividade econômica declarada pelos investigados.
Procurada, a defesa dos investigados R.S. e M.F. não foi localizada para comentar as acusações até o momento desta publicação. A investigação segue em andamento sob sigilo, na Delegacia de Repressão a Crimes Ambientais e Históricos da PF em Manaus. Ao final da fase de inquérito, os autos serão remetidos ao Ministério Público Federal (MPF) para análise de oferecimento de denúncia. Se condenados, os suspeitos podem penar de dois a cinco anos de reclusão pelo crime de contrabando, além de sanções por dano ambiental.
Diego Câmara
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.
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