PM é presa por atirar na perna da ex-mulher do ex-marido em Boa Vista
Discussão por entrega de alimentos à filha resultou em disparo de arma de fogo no bairro Cauamé; militar foi detida em flagrante.
Uma soldado da Polícia Militar (PM) de Roraima, de 36 anos, foi presa em flagrante na noite desta segunda-feira (1º) sob a acusação de disparar um tiro de arma de fogo contra a perna da atual companheira de seu ex-marido, de 31 anos. O fato ocorreu por volta das 20h36, na residência situada no bairro Cauamé, zona Oeste de Boa Vista. A guarnição da PM que atendeu a ocorrência registrou que o conflito teria origem em uma desavença referente à entrega de pães de queijo para a filha menor de idade da militar.
Segundo informações constates no Boletim de Ocorrência (BO) nº 2026/009876, a suspeita relatou aos policiais militares que possui a guarda compartilhada da criança com o ex-cônjuge e que teria se dirigido ao imóvel do pai da menina para deixar uma sacola com alimentos. A dinâmica investigada pela Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher (DEAM) e pela Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) indica que, após a primeira ida ao local, a atual companheira do ex-marido (a vítima) solicitou que a criança ligasse para a mãe pedindo o retorno da militar para buscar a sacola.
Cerca de vinte minutos após o contato telefônico, a soldado retornou à residência. Imagens captadas por câmeras de segurança do imóvel, que já foram periciadas e anexadas aos autos do inquérito, registram o momento da abordagem. Na gravação, é possível ver a vítima dirigindo-se ao portão portando a sacola, iniciando-se uma troca de palavras que escalou rapidamente para o conflito físico. Durante a discussão, a militar efetuou o disparo, atingindo a região inferior da perna esquerda da mulher de 31 anos.
A vítima foi socorrida por populares e conduzida à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro Senador Hélio Campos, onde recebeu os primeiros atendimentos médicos. O ferimento, porém, não oferecia risco de morte imediato segundo boletim médico parcial. A soldado, que estava em serviço de folga no momento do crime, foi detida no local sem oferecer resistência e conduzida à DHPP para a lavratura do Auto de Prisão em Flagrante.
Além da investigação criminal, que aponta os crimes de tentativa de feminicídio (art. 121, § 2º, II e VI do Código Penal), violência doméstica (Lei Maria da Penha) e disparo de arma de fogo, o caso segue trâmite administrativo interno. A Corregedoria da Polícia Militar (CPM) instaurou procedimento administrativo para apurar a conduta da policial, conforme prevê o Estatuto dos Militares. A arma utilizada no crime, possivelmente o armamento regulamentar da praça, foi recolhida e encaminhada para o Instituto de Criminalística (IC) para exames de balística.
Discussões aparentemente banais, como o fornecimento de alimentos ou horários de visita, frequentes em processos de separação litigiosa, podem evoluir para episódios de alta gravidade quando envolvem posse ou porte de armas. Boa Vista tem registrado, nos últimos meses, um aumento nas intervenções das patrulhas Maria da Penha em conflitos familiares. A prisão de uma militar por crimes dessa natureza é considerada um episódio grave e de repercussão interna, já que a corporação tem reforçado campanhas de combate à violência contra a mulher em suas fileiras.
A defesa da militar, constituída na delegacia, informou que irá pleitear a liberdade da cliente. A tese preliminar sustentada pelos advogados é de legítima defesa, alegando que a militar se sentiu ameaçada durante a abordagem no portão. Entretanto, a versão é contestada pelas imagens de vídeo que mostram a vítima desarmada e pela distância do disparo, que deverá ser atestada pela perícia. A defesa também alegou que a arma estava em coldre e só foi sacada em momento de tensão.
O inquérito policial segue sob sigilo na DHPP. A prisão em flagrante deve ser analisada pelo judiciário na audiência de custódia, agendada para as próximas horas. O Ministério Público Estadual (MPRR) deve oficiar pela manutenção da segregação cautelar e pela conversão do flagrante em preventiva, considerando o grau de reprovabilidade do comportamento e o risco à integridade da vítima. Medidas protetivas de urgência foram solicitadas em favor da mulher ferida. O caso tramita na 2ª Vara Criminal de Boa Vista.
Diego Câmara
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



