Ponte inacabada em Rio Sono está há 20 anos no meio da mata no Tocantins
Estrutura da BR-010 foi iniciada em 2005; motoristas ainda dependem de balsa para atravessar o Rio Santa Maria.
Célio Lones para a moto na beira da estrada de chão batido que dá acesso ao leito do Rio Santa Maria, em Rio Sono, no extremo leste do Tocantins. Ele aponta a câmera do celular para o meio do riacho que seca na estiagem, onde pilares de concreto se erguem sem rumo. Ali, no meio da mata fechada, dorme há exatos 21 anos a ponte que deveria ter tirado o município do isolamento.
O projeto da BR-010 foi lançado em 2005. A promessa era simples: conectar asfaltado o Tocantins ao Maranhão, acabando com a dependência da balsa que ainda hoje opera na travessia. Quem passa por ali hoje vê ferrugem no vergalhão e ipês crescendo no lugar onde deveriam passar carretas de soja. Na cabeceira da ponte, a vegetação alta já tomou o espaço que deveria ser ocupado pelo asfalto.
"Aqui no município de Rio Sono, atravessando o Rio Santa Maria, conhecido como 'Rio Perdida'. Acho que quem perdeu aqui fomos nós. Perdemos o direito de atravessar na ponte. Mais uma obra abandonada pelo poder público", relata Célio, enquanto a gravação mostra o cenário de abandono.
A espera pela travessia é parte da rotina de quem vive na divisa dos estados. Dona Nair de Souza, 58 anos, agricultora, lembra da euforia quando as máquinas chegaram ao município. Ela tinha 37 anos e acreditava que os filhos não precisariam mais migrar para outras cidades para estudar ou trabalhar. "A gente pensava que o progresso vinha de barco. Veio de promessa. A ponte não saiu do papel, e meus filhos foram embora", diz ela, sentada na varanda da casa que fica a menos de cinco quilômetros da obra parada.
O impacto econômico é calculado na perda de tempo e no aumento do custo do frete. A BR-010 é uma artéria essencial para o escoamento da produção agrícola do Bico do Papagaio e região. Sem a ponte, o fluxo desvia para a BR-245 e enfrenta a balsa. Na alta da safra, a fila de caminhões estende por quilômetros na margem do rio, com espera que pode passar de duas horas.
Seu Geraldo Ribeiro, 62 anos, caminhoneiro, conhece cada curva da região. Ele calcula o prejuízo não só em diesel, mas em horas de estrada que poderiam ser de descanso ou outra viagem. "É uma travessia que leva 40 minutos se tiver sorte. A ponte era um salto de dois minutos. O Tocantins perde em competitividade, o produtor perde na carga. É um dinheiro queimado no rio", afirma Ribeiro, enquanto verifica a documentação para embarcar na balsa de madeira.
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), responsável pela rodovia federal, não informou, até a publicação desta matéria, um novo cronograma para a retomada das obras. O último levantamento oficial aponta a paralisação por falta de repasse orçamentário na época, mas as razões do abandono total de duas décadas não foram detalhadas em nota recente.
Na prática, a estrutura se tornou um monumento ao inacabado na região leste do Tocantins. O concreto, exposto ao sol e às chuvas intensas da região, começa a mostrar sinais de deterioração que podem comprometer a fundação caso a obra não seja retomada e avaliada tecnicamente. Enquanto isso, a balsa segue sendo a única via de ligação para quem precisa cruzar o chamado "Rio Perdida".
Reclamações e solicitações de informações sobre o andamento de obras em rodovias federais no Tocantins podem ser feitas pela Ouvidoria do DNIT no telefone 166, opção 2, ou pelo portal da instituição federal.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



