ed. #024
nortıcia
nortícia · cidades · pará
Nortícia CidadesCrise na Saúde

PSM da 14 de Belém suspende serviços por falta de repasse da Prefeitura

Unidade paraense enfrenta corte em neurocirurgia e imagem; pacientes aguardam em corredores sem perspectiva de atendimento.

a
Ananda Rocha
Pará · AM
10 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 659 palavras
Corredor lotado do Pronto-Socorro Municipal Mário Pinotti, em Belém, com pacientes aguardando atendimento.
Unidade paraense enfrenta corte em neurocirurgia e imagem; pacientes aguardam em corredores sem pers · Foto: Redação Nortícia

Maria da Conceição, 58 anos, senta em um banco plástico de cor azul desbotado no corredor do setor de neurocirurgia do Pronto-Socorro Municipal Mário Pinotti, o PSM da 14, no bairro do Guamá, em Belém. Ela carrega na bolsa o envelope com os exames de imagem que o marido, vítima de um acidente vascular cerebral no último domingo, precisa de urgência para ser encaminhado para o centro de referência. Mas o laudo não sai. O sistema que emite os resultados dos exames foi bloqueado na terça-feira por falta de pagamento.

A cena se repete em outras alas da maior unidade de urgência e emergência da capital paraense. Três hospitais que prestam atendimento especializado ao PSM suspenderam contratos em áreas cruciais: neurocirurgia, traumatologia e ortopedia. O motivo apontado pela gestão interna é o atraso nos repasses da Prefeitura de Belém às empresas contratadas. Sem dinheiro, os fornecedores cortam o acesso ao software de laudos e ameaçam desligar os aparelhos de tomografia, raio-X e eletroencefalograma.

"O médico olhou, disse que precisava ver a tomografia com urgência, mas o sistema de repasse de dados estava fora do ar. Eles falaram que é porque a Prefeitura não pagou a empresa do exame", relata Maria, que pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome. Enquanto ela fala, uma senhora deitada em uma maca aguarda há seis horas pela redução de uma fratura no fêmur. O ortopedista de plantão informou que não há material e nem vaga no hospital de retaguarda.

A falta de serviços especializados transforma o pronto-socorro em um depósito de pacientes. Quem chega com trauma craniano ou fratura exposta fica retido na triagem, sem perspectiva de atendimento cirúrgico, pois os leitos do centro de referência da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) também estão escassos. A reportagem apurou que a crise financeira afeta diretamente o setor de diagnóstico por imagem, o olho clínico da medicina moderna para definir condutas graves.

A denúncia partiu de uma servidora da unidade, que prefere não se identificar por medo de represálias. Ela afirma que a situação é crítica há pelo menos 15 dias. "As empresas de apoio avisaram que não vão manter o equipamento ligado se não verem o dinheiro na conta. O paciente é o refém dessa disputa", disparou a funcionária, apontando para a fila que se estende até a recepção.

No bairro do Pedreira, a dona de casa Ana Paula Souza, 34, conta que a filha de oito anos caiu no pátio da escola e machucou o braço. "A gente veio correndo para o PSM porque é o mais perto. Lá disseram que tinha que ir pro outro hospital fazer o raio-X, porque o sistema deles estava cancelado. E eu sem dinheiro para pagar particular", diz Ana. Ela foi encaminhada para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Maracangalha, que operava com superlotação na manhã desta quarta-feira.

A Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) foi procurada para se posicionar sobre o bloqueio do sistema de laudos e a suspensão dos contratos dos especialistas. Até o fechamento desta matéria, a pasta não enviou nota oficial esclarecendo os prazos para a regularização dos pagamentos. Histórico recente da unidade mostra que o PSM da 14 já enfrentou problemas semelhantes, incluindo a falta de pediatras e mortes por ausência de neurocirurgiões no período noturno.

A unidade é referência para uma população de mais de 200 mil habitantes, atendendo não só o Guamá, mas também bairros como o Jurunas, a Terra Firme e a Cremação. A falta de repasses que paralisa os serviços atinge diretamente a estrutura da rede de saúde municipal, forçando um remanejamento de emergência que nem sempre é possível.

Pacientes que tiveram exames cancelados ou cirurgias adiadas devem registrar a ocorrência na Ouvidoria Geral de Belém. O canal de denúncia funciona pelo telefone 156, discando opção 3, ou pelo aplicativo Belem Cidadão. É necessário ter em mãos o número do cartão SUS e a data do atendimento para gerar o protocolo e garantir prioridade na fila de reparação.

a
◆ Repórter · Nortícia Cidades

Ananda Rocha

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

Reportagens como essa, no seu e-mail

Newsletter da Nortícia Cidades

Toda terça, uma carta com o que aconteceu de mais importante em cidades no Norte. Sem agenda, sem partido.