TranspoAmazônia debate em Manaus gargalo que encarece custo logístico do Norte
Evento reúne representantes de 50 países para discutir cabotagem, e-commerce e reforma tributária no Polo Industrial.
Manaus recebe, até esta sexta-feira (29), a III TranspoAmazônia — Feira e Congresso Internacional de Transporte e Logística. O evento mobiliza representantes de 50 países para debater um entrave econômico central para a Região Norte: o custo logístico, que no Amazonas pode representar até 20% do preço final do produto industrializado, contra uma média de 12% no Sudeste, segundo estimativas consolidadas pelo setor.
Para colocar em perspectiva, enquanto uma carga rodoviária sai de São Paulo e chega ao Paraná em até 24 horas com custos previsíveis, o escoamento da produção do Polo Industrial de Manaus (PIM) depende de modal fluvial ou de cabotagem — transporte marítimo entre portos nacionais —, sujeito às oscilações do nível dos rios e à burocracia portuária. A presença da Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac) no congresso sinaliza o esforço do setor para transformar os rios da Amazônia em uma "autoestrada líquida" eficiente.
O impacto desse gargalo é direto na inflação regional e na competitividade da indústria local. Se o frete encarece, o preço do botijão de gás, da cesta básica e dos eletrodomésticos produzidos na Zona Franca sobe para o consumidor manauara e para os mercados do interior, onde os preços já são em média 30% superiores aos da capital. O foco dos debates no Centro de Convenções Vasco Vasques busca justamente atenuar essa "taxa de isolamento" que o Amazonas paga geograficamente.
Historicamente, a logística no Norte sempre foi o calcanhar de Aquiles do modelo de desenvolvimento da Zona Franca. Criada nos anos 70 para atrair indústria via incentivos fiscais, Manaus competia com o diferencial de mão de obra barata. Hoje, com o encarecimento do trabalho e a pressão por redução da renúncia fiscal em Brasília, a eficiência logística deixou de ser um coadjuvante para se tornar condição de sobrevivência do polo. A participação da Confederação Nacional do Transporte (CNT) aponta para uma articulação política maior no Congresso para liberar verbas de infraestrutura que, até agora, focaram desproporcionalmente no modal rodoviário do Centro-Sul.
"A Amazônia possui riquezas e indústrias que precisam circular com a mesma fluidez que o dinheiro no mercado financeiro", afirmou Raquel Vidal, da Federação de Empresas de Logística, Transporte e Agenciamento de Cargas da Amazônia, durante a abertura. A declaração resume o anseio do setor: transformar a logística de custo em vantagem competitiva, usando a hidrovia não como barreira, mas como ativo.
Além das rodovias e hidrovias, o congresso coloca em pauta a Reforma Tributária. A mudança no sistema de cobrança de impostos sobre consumo, que deve entrar em vigor parcialmente nos próximos anos, promete — na teoria — acabar com a "guerra fiscal" dos portos. Hoje, estados disputam cargas oferecendo benefícios no ICMS, distorcendo a rota logística mais eficiente. Se a transição para o IVA (Imposto sobre Valor Agregado) ocorrer sem traumas, pode haver uma racionalização das rotas que beneficia diretamente o escoamento da produção do PIM para o Norte e Nordeste, reduzindo a necessidade de longos desvios até o porto de Santos.
É preciso, contudo, moderar o otimismo. Dados do Ministério dos Transportes indicam que o investimento em infraestrutura hidroviária na Amazônia Legal cresceu abaixo da inflação acumulada dos últimos quatro anos. Sem dragagem constante e modernização dos portos privados, o aumento da frota de cabotagem prometido pelo setor pode resultar apenas em filas maiores de espera nos atracadores, gerando um novo custo: o tempo da carga parada.
O próximo grande teste para o setor logístico regional será a implementação dos novos trâmites da Reforma Tributária previstos para 2027, data em que as empresas terão que adaptar seus sistemas de faturamento à nova realidade nacional. Até lá, o desafio é manter as pontes — e os navios — abertos.
Renato Lobo
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.
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