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Uiramutã vive abandono estrutural apesar de riquezas naturais em Roraima

Município tem o pior índice de qualidade de vida do país, enquanto população luta contra falta de saneamento básico e de saúde na fronteira Norte.

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Ananda Rocha
Roraima · AM
30 de mai. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 560 palavras
Vista da entrada da cidade de Uiramutã, em Roraima, com placa de turismo e estrada de terra.
Município tem o pior índice de qualidade de vida do país, enquanto população luta contra falta de sa · Foto: Redação Nortícia

Dona Joana Macuxi, 42 anos, caminha até a Unidade Básica de Saúde (UBS) da sede de Uiramutã com a filha de 2 anos no colo. São 6h da manhã e o orvalho ainda molha a grama da praça central, mas a fila já se forma na porta de madeira. O médico pediatra só chega de Boa Vista duas vezes por mês, e o voo da FAB atrasou. Joana precisa do antibiótico que a menina tomou no mês passado, mas o estoque da farmácia básica é incerto.

É a rotina do ponto de atendimento que define o 'último lugar' no Índice de Progresso Social (IPS) do Imazon. Uiramutã marcou 42,44 pontos e ficou na última posição do ranking nacional pela terceira vez seguida. O índice não olha para o PIB, olha para a água que sai — ou não sai — da torneira e para o tempo de espera na fila. São 57 indicadores analisados, divididos em necessidades humanas básicas, bem-estar e oportunidades. O relatório aponta gargalos específicos: baixa cobertura de esgoto e dificuldade de acesso a serviços de saúde de qualidade.

No bairro do São José, o cacique Pirapitinga, de 55 anos, mostra o sistema de captação de água improvisado com mangueiras pretas que descem da serra. 'A gente vive na terra mais bonita do mundo, mas sem tratamento de água é doença certa', diz ele, apontando para as crianças brincando perto de um valão a céu aberto. A prefeitura informou que recentemente perfurou um novo poço artesiano na comunidade, mas a rede de distribuição não cobre todas as residências.

A educação é outro ponto de estrangulamento. Na Escola Estadual Indígena Major Iramar, a professora Cláudia Souza, 29 anos, divide a atenção entre 35 alunos de séries diferentes. 'Temos material didático vindo de Manaus, mas falta internet para registrar as notas no sistema e a merenda às vezes chega estragada porque a estrada demora', conta Cláudia. O transporte escolar é feito em caminhonetes do IBGE cedidas ao município, que sofrem com o desgaste das pistas de terra ligando as aldeias à sede.

Na saída da cidade, a placa de turismo diz: 'Deixe nada além de pegadas'. Mas quem precisa sair para vender a produção agrícola esbarra na RR-205. O agricultor Raimundo Almeida, 58, espera na calçada o caminhão da prefeitura para levar o excesso da colheita de banana. 'A estrada é um atoleiro. O que a gente planta aqui, muitas vezes apodrece porque não consegue chegar em tempo no mercado de Boa Vista', reclama Raimundo. O asfaltamento do trecho de 40 quilômetros até Pacaraima é uma promessa que arrasta desde os anos 90, retomada em campanhas eleitorais e parada logo em seguida.

A gestão municipal, por meio da Secretaria de Planejamento, divulgou nota oficial criticando a metodologia do IPS e afirmando que o isolamento geográfico dificulta a comparação com centros urbanos. O texto lembra a inauguração do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e a construção de novas salas de aula, mas não cita metas para saneamento.

Enquanto o ranking do Imazon vira notícia nacional, o Conselho Municipal de Saúde marcou uma audiência pública para o dia 15 de junho para cobrar do Estado a lotação do hospital local. Reclamações sobre o abastecimento de água e o transporte escolar podem ser registrados diretamente na secretaria de obras, na Rua da Prefeitura, número 10, ou pelo telefone do Disque 156.

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◆ Repórter · Nortícia Cidades

Ananda Rocha

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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