ed. #025
nortıcia
nortícia · cultura · amazonas
Nortícia CulturaFestival de Itacoatiara

47º Festival de Itacoatiara celebra o folclore do médio Amazonas com entrada franca

Evento reúne 25 agremiações entre quadrilhas, cirandas e bois-bumbás em três noites de festa gratuita no interior do AM.

k
Karina Pinheiro
Amazonas · AM
19 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 624 palavras
Palco iluminado com brincantes de fantasia colorida durante apresentação de quadrilha junina.
Evento reúne 25 agremiações entre quadrilhas, cirandas e bois-bumbás em três noites de festa gratuit · Foto: Redação Nortícia

O cheiro de pó de arroz e o brilho da lantejoula roçando a pele antecedem a música. É sexta-feira à noite em Itacoatiara, e o ar no Centro de Eventos Juracema Holanda já sabe que a festa é sagrada. A 47ª edição do Festival Folclórico da cidade, que acontece entre 19 e 21 de junho, não é apenas uma exibição de palco: é a afirmação da memória do médio Amazonas, onde o suor da brincante vale mais que o ingresso, porque a entrada, há quase meio século, é franca.

Durante três dias, a arena se transforma no pulmão cultural da região. São 25 agremiações dividindo o chão batido, levando para o palco a força da quadrilha junina, a roda infinita da ciranda e a dramaturgia bruta do boi-bumbá. Em Itacoatiara, o folclore não está em museu; ele está nas sapatilhas gastas e na voz rouca dos cantadores que ensaiam o ano inteiro.

Dona Cláudia Ribeiro, 48 anos, é costureira de figurinos há duas décadas e veste o "Boi Caprichoso" local — não o de Parintins, mas o do coração da sua comunidade. "Fazer a roupa do boi é como vestir um santo", diz ela, enquanto ajusta uma lantejoula minutos antes da abertura. "A gente passa noites em claro pra que o couro brilhe e o miolo do boi encante a criançada. É isso que sustenta a cidade."

A programação segue o calendário sagrado do interior. A sexta-feira (19) pertence às quadrilhas, com o caixe e o zabumba marcando o passo do "balão". Não é só o sanfoneiro que puxa o partido alto; é o bater de pés no chão de cimento que reverbera. Quadrilhas como a "São Jorge na Roça" e a "Diamante" trazem o campo para a cidade urbana, com chapéus de palha e roupa de caubói que, na Amazônia, ganham um ar de aventura ribeirinha. Há um momento específico, quando as luzes baixam para o "fogo", onde o cheiro de enxofre se mistura ao perfume de essência de cidreira que as mães passam nas filhas antes da apresentação.

No sábado (20), o corpo pede outro ritmo. A noite é das danças nacionais, internacionais e, principalmente, da ciranda. A ciranda de Itacoatiara não é a de cartão-postal; ela é feita de braços dados, de suor que escorre pelo rosto e de um som de zabumba que nasce no fundo do terreiro. É o momento em que a diferença entre quem está no palco e quem está na plateia se apaga, e todos são rodados pela mesma força centrífuga que parece o balanço das águas do Rio Amazonas, que corta a cidade lá embaixo.

O ápice acontece no domingo (21). A noite dos bois-bumbás é o momento da emoção crua. É quando a "Marujada" entra com seu canto grave e o contraponto entre o charutador e o doutor faz a plateia segurar a respiração. O historiador Paulo Monteiro, observador da cultura popular amazonense, nota que o festival de Itacoatiara é vital para preservar as matrizes originais. "Aqui, o boi não tem a obrigação do show televisivo. Ele tem a obrigação da verdade. É folclore no sentido mais antigo e nobre da palavra", avalia.

Quem vai não vai só ver, vai sentir o couro do tambor vibrando no peito. A organização espera lotar o espaço, provando que a cultura popular é capaz de encher mais que qualquer contrato de cancelamento. É o resgate da identidade de uma cidade que se faz na festa, na rua, no encontro.

O 47º Festival Folclórico de Itacoatiara acontece de 19 a 21 de junho, a partir das 19h30, no Centro de Eventos Juracema Holanda. A entrada é franca. Chegue cedo para garantir lugar na arquibancada e, se puder, leve um lenço para acenar na passagem da rainha do festival.

k
◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

Reportagens como essa, no seu e-mail

Newsletter da Nortícia Cultura

Toda terça, uma carta com o que aconteceu de mais importante em cultura no Norte. Sem agenda, sem partido.