Eita Junino é bicampeã do Grupo Diamante no Boa Vista Junina
Com homenagem aos poetas do Nordeste, quadrilha vence disputa acirrada contra a Amor Caipira e conquista sexto título em Roraima.
O clarão dos fogos de artifício ainda piscava na retina quando o nome da Eita Junino ecoou pelo tablado Chiquinho Santos, em Boa Vista. O pó da quadra, levantado pelas galochas e saias rodadas em uma coreografia frenética nos últimos minutos, parecia suspender o tempo naquela noite de apuração. Era o ritmo do xote e do baião ditando o compasso de uma vitória que já cheirava a pólvora e glória. Na Praça Fábio Marques Paracat, o coração do arraial disparou junto com os quase 400 brincantes que viam o esforço de meses se transformar em ouro.
Não era apenas mais um título. Era a confirmação de um reinado. Ao vencer o inédito Grupo Diamante — a elite formada pelas seis melhores quadrilhas do concurso de Roraima — a agremiação carimbou o bicampeonato do Boa Vista Junina 2026. Foi a segunda conquista seguida e a sexta da história da escola que transformou a tradição junina em arte de alta performance. Manter o topo, dizem por lá, é mais difícil do que chegar lá. É o peso da expectativa somando ao cansaço dos ensaios sob o sol equatorial.
O enredo que subiu ao tablado foi um convite à viagem sonora. A Eita Junino escolheu homenagear os poetas que forjaram a alma das festas juninas: Marinês, Jackson do Pandeiro, o rei do baião Luiz Gonzaga e seu filho Gonzaguinha. Não bastava representar; era preciso sentir. No meio da quadra, a sanfona parecia ganhar vida nas mãos dos passistas, e as cores do sertão se misturavam com a folhagem de Roraima em um visual que beirava o delírio colorido. A zabumba marcava o tempo, e o pife cortava o ar, lembrando que a cultura nordestina tem raízes profundas mesmo na fronteira amazônica.
A noite, porém, não foi de passeio. A apuração transformou-se em um cabo de guerra emocional. A quadrilha Amor Caipira, vice-campeã, pressionou do primeiro ao último quesito. A diferença gritava nos minutos finais. A decisão só se definiu na coreografia, o último critério avaliado pelos jurados, onde a Eita Junino entregou a performance que faltava para segurar o caneco. O terceiro lugar ficou com a Zé Monteirão, completando o pódio de uma noite onde o erro não foi permitido e o perfeccionismo foi a única moeda de troca.
Aqui no Norte, a quadrilha não é folia amadora; é indústria cultural, é ancestralidade em movimento. São mais de mil pessoas envolvidas entre costureiras, aderecistas, músicos e dançarinos que sustentam uma economia que pulsa apenas no mês de junho. Ver a Eita Junino levantar a taça é ver a persistência de uma comunidade que resiste ao cronograma da cidade moderna para preservar o ritmo da roça e da festa.
A festa acabou na quadra, mas o arrastapé ainda pode durar. Para quem perdeu o espetáculo ao vivo, a cultura junina de Roraima segue vibrando nas memórias e nos preparativos para o próximo ano. O Boa Vista Junina 2026 encerrou seu ciclo, mas o som da sanfona continua convidando para a próxima dança.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



