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Nortícia BoaCampanha de Adoção

Abrigo de Cacoal usa 'cãovocação' digital para adotar pets em Rondônia

Abrigo Vira Lata Vira Amigo aderiu a trend da Copa e convocou 17 animais. Sete pets já ganharam um lar definitivo com a ação criativa em Cacoal.

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Padre Bruno Sena
Rondônia · AM
27 de mai. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 650 palavras
Cães esperam em frente ao abrigo Vira Lata Vira Amor, em Cacoal, durante campanha de adoção.
Abrigo Vira Lata Vira Amigo aderiu a trend da Copa e convocou 17 animais. Sete pets já ganharam um l · Foto: Redação Nortícia

Marília Lenci, 44 anos, senta no banco de madeira do pátio do Vira Lata Vira Amor, em Cacoal. O sol de Rondônia castiga o meio da tarde, mas ela nem sente o calor. Segura o celular com a mão direita e, com a esquerda, ajeita a orelha de Thor, um vira-lata preto de olhos melancólicos, que não para de abanar o rabo. Ela não está tirando uma selfie comum para passar o tempo; está preparando a convocação oficial. Thor posa, orgulhoso, sem saber que ali está a chance de sair das grades e encontrar um sofá.

A inspiração veio de longe, da televisão que grita sobre a Copa do Mundo nas casas da vizinhança, mas o jogo aqui é outro. Em vez de craques de grama bem cuidada e contratos milionários, os convocados são de pêlo e patas. Marília e os outros voluntários pegaram os animais — dezessete cães e gatos escolhidos a dedo — e fizeram suas figurinhas, aquelas imagens coloridas que circulam no WhatsApp e no Instagram chamando a família para bater o cartão. O design imita as oficiais da seleção, mas a "posição" do jogador é substituída pelo apelo do coração. Não é para o time do Brasil; é para o time da casa, aquele que ninguém vê, mas que está lá, esperando.

O abrigo existe há tempos, lutando contra a falta de recursos e o excesso de abandono que acomoda as cidades que crescem rápido. Cacoal avançou, e junto com o asfalto vieram os animais deixados nos cantos de rua, nos quintais sem dono. O trabalho é de formiguinha, de dia após dia limpando, alimentando, medicando. Às vezes parece que o mar está para cima de quem cuida, tantos são os pedidos de ajuda que chegam pelas redes sociais. Mas é ali, naquele pedaço de chão batido, que a esperança se mantém viva. É um ato de resistência, de amor que se dobra todos os dias para recomeçar.

Hoje são cem bichos sob o telhão — setenta cães e trinta gatos. Cada um tem um nome, uma história de medo e um jeito peculiar de pedir carinho. Thor, o da foto, já foi muito magro, achado na beira da estrada; agora espera o dono que nunca vai embora. Tem a Mel, que é mais tímida e se esconde nas panelas, e o Fred, que não para de latir quando chega visita, tentando ser o primeiro a ser escolhido. São cem corações batendo juntos, pedindo apenas uma chance que a cidade às vezes nega no corre-corre da vida.

A brincadeira da "cãovocação", como chamaram com ironia e ternura, serve para encontrar o que todo ser vivo precisa: um portão para chamar de seu. A ideia foi usar a alegria contagiante do futebol para espalhar a notícia de que há vida esperando ali. As figurinhas imitam as oficiais, com o nome, a posição e o detalhe importante: "joga amor, gratidão e companheirismo". Sete dos "convocados" já encontraram sua seleção, ou melhor, sua família. O celular de Marília apitou com a notícia da adoção, a mesma alegria, talvez maior, de um gol de placa.

"Eles não vão jogar bola, não vão levantar taça, mas são craques no amor", diz Marília, olhando para Thor, que agora se deitou em seus pés, pedindo um cafuné. "Quando um é adotado, abre-se espaço para outro. É um ciclo de salvação que a gente mantém com a ajuda da comunidade. É um exercício de fé, acreditar que para cada um há um coração preparado lá fora."

A tarde em Cacoal começa a cair, trazendo um frescor no ar do pátio. Thor levanta a cabeça, ouve um carro passar distante, e depois sossega de novo, voltando a fechar os olhos. A figurinha dele está pronta na tela do celular, iluminada pelo último raio de sol. Ele espera apenas alguém que pare a correria do dia, olhe com atenção e decida levar o amor para casa.

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◆ Repórter · Nortícia Boa

Padre Bruno Sena

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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