Acre decreta emergência sanitária por surto de gripe com 37 mortes
Com 1,3 mil casos notificados, estado libera recursos para unidades superlotadas por vírus respiratórios.
Dona Cândida Feitosa, 68 anos, chegou à UPA 2 de Setembro às 5h da manhã com um neto de dois anos tossindo sem parar. A sala de espera já estava cheia. Três horas depois, a senha ainda não tinha saído. O ar condicionado, quebrado há dias, não dava conta do calor de Rio Branco, onde os termômetros passavam dos 30 graus cedinho. "Era só uma tossida, agora ele mal consegue respirar", diz Cândida, acariciando a testa febril do menino no banco plástico da fila.
O cenário de lotação não é isolado naquela manhã de quinta. Ele se repete nas emergências da Santa Casa, no Hospital das Clínicas e em todos os postos de saúde da capital acreana. A fila de cadeiras de rodas e macas nos corredores forçou a mão do governo. O Acre decretou situação de emergência na saúde pública por conta do aumento de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave, a SRAG.
Segundo o balanço mais recente da Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre), o cenário é o pior dos últimos três anos. Entre janeiro e o dia 23 de maio, o Acre somou 1.303 notificações de SRAG. É um salto de 31% em relação a 2025, quando o estado contabilizou 989 casos no mesmo período. Também é maior que 2024, que fechou com 1.029 notificações. A cifra mais dura vem dos óbitos: 37 mortes registradas até agora.
A dona de casa Maria das Dores, 34 anos, viu o degrau da urgência de perto na semana passada. Ela levou o marido, auxiliar de serviços gerais, para a UPA da Zona Norte depois que ele passou mal no serviço. "Ficamos quatro horas. Ele sentado no chão porque não tinha cadeira. Chegou uma hora que ele desmaiou de falta de ar", relata. O diagnóstico foi Influenza A. "O médico passou soro e disse pra gente ir pra casa cuidar, mas não tinha remédio na farmácia. Tivemos que correr na farmácia particular", conta.
O boletim técnico da Sesacre aponta que a maior circulação viral no momento é de Influenza A, mas também há muita presença do vírus sincicial respiratório (VSR), rinovírus, adenovírus e metapneumovírus. É uma combinação de vírus respiratórios atropelando o sistema imunológico da população em um ano em que o clima úmido favoreceu a proliferação.
A governadora Mailza Assis assinou o decreto de emergência em uma edição extra do Diário Oficial do Estado (DOE). O texto é direto: a medida serve para liberar recursos rápidos e permitir que compras de insumos e contratações de médicos e enfermeiros sejam feitas sem a burocracia habitual em tempos normais. O decreto também torna o atendimento da saúde como prioridade máxima em todos os órgãos públicos estaduais, transferindo verbas de outras pastas para cobrir o buraco na saúde.
Procurada pela reportagem, a gestão da Sesacre informou, em nota, que a emergência vai fortalecer o monitoramento e a compra de antivirais e testes rápidos. A secretaria pede que a população não procure as unidades apenas por sintomas leves de resfriado, para não sobrecarregar ainda mais o fluxo que já colapsou. O foco agora são os casos de risco: idosos, crianças pequenas e gestantes.
Enquanto o decreto não se transforma em mais leitos e médicos na ponta, a fila continua. De volta à UPA 2 de Setembro, Dona Cândida finalmente consegue entrar no consultório com o neto. O dia já amanheceu lá fora, e a senha chamada é a 402. Há mais de 50 pessoas aguardando ainda no corredor. "Tomara que tenham remédio hoje", reza ela, levantando a bolsa.
A recomendação da Sesacre é para buscar unidades de saúde em caso de febre alta persistente (acima de 38 graus), dor no peito, falta de ar ou lábios roxos. A vacinação contra a gripe continua disponível nos postos fixos, mas a adesão este ano ficou abaixo da meta em vários municípios do interior.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.


