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Nortícia CulturaArte Amazônica em NY

Acre invade o Brooklyn: estudante leva floresta para festival em Nova York

Exposição 'Acre em Celebração' levou pinturas da fauna e flora australianas para o Festival OPA, conectando o Juruá ao Bushwick.

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Karina Pinheiro
Acre · AM
18 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 609 palavras
Pintura colorida de uma onça-pintada exposta em estande durante evento cultural em Nova York.
Exposição 'Acre em Celebração' levou pinturas da fauna e flora australianas para o Festival OPA, con · Foto: Redação Nortícia

O verde da mata alagada transbordou das telas e tomou conta do piso espelhado do House of Yes, no coração industrial de Bushwick. Entre a iluminação psicodélica de um dos clubes mais emblemáticos do Brooklyn e o ritmo da festa junina que ensaiava seus primeiros passos no domingo (7), o que chamava atenção não era a indumentária caipira típica das festas de São João, mas o olhar fixo e amarelo de uma onça-pintada pintada em acrílico. Eduarda Mendes, 16 anos, pisou no palco do Festival OPA! com a missão de traduzir o cheiro de mokoha e o barulho da chuva na floresta para um público que, na maior parte, nunca pisou na Amazônia e conhece a região apenas por manchetes de desmatamento.

A mostra intitulada "Acre em Celebração: Natureza, Histórias e Novos Futuros" não era apenas uma exposição de arte passiva; era uma ponte construída com tintas e memórias entre o Alto Juruá e a costa Leste americana. Eduarda, que viveu em Cruzeiro do Sul entre 2021 e 2023 e hoje é integrante do prestigioso Programa Jovens do MoMA, do Museu de Arte Moderna de Nova York, usou a sua residência artística para desconstruir a ideia de que a floresta é apenas um recurso inerte. Ela trouxe vida, movimento e, acima de tudo, histórias de convivência que desafiam a lógica urbana de Nova York.

As oito pinturas expostas eram um convite para olhar de perto, ignorando a tela do celular por um instante. Havia a relação quase simbiótica entre uma borboleta específica e uma tartaruga amazônica, um detalhe biológico complexo que só quem caminha pelas margens do rio Moa conhece de ouvir os ribeirinhos. Havia o monitoramento da fauna, retratado não como ciência fria de laboratório, mas como um ato de cuidado e vigilância comunitária. Em cada traço, a estudante de 16 anos colocava um pouco da vivência que trouxe do Acre, lembrando aos nova-iorquinos que a arte não acontece apenas nos salões brancos de Manhattan, mas também nas beiras de rio e nas varandas de casas de madeira.

O Festival OPA! Festa Junina, realizado no House of Yes, é um evento que celebra a cultura brasileira fora do Brasil, mas a presença de Acre ali trouxe uma camada de profundidade necessária. Não era apenas o São João do sertão nordestino que ecoava pelos alto-falantes mixados com batidas eletrônicas; era a biodiversidade do extremo oeste brasileiro ganhando espaço na conversa cultural. Eduarda conduziu uma oficina onde o público não apenas via, mas interagia. O desafio proposto era pensar em futuros possíveis para a Amazônia, longe das narrativas catastróficas que muitas vezes dominam os jornais internacionais.

A voz da jovem artista carrega a responsabilidade de quem viu de perto a força e a fragilidade da floresta. Ao apresentar seu trabalho em Nova York, ela transforma o olhar estrangeiro. O Acre deixa de ser um ponto distante no mapa para se tornar um lugar de pessoas, de cores vibrantes, de onças que espreitam e de rios que contam histórias milenares. É a cultura amazônica entrando no circuito global não como curiosidade exótica para consumo rápido, mas como produção de conhecimento sensível e político.

Terminada a exposição, as telas voltaram para o estojo, mas o sementamento ficou. O Festival OPA! seguiu sua programação de quadrilhas e música, mas quem passou pelo stand de Eduarda Mendes levou para casa um pouco do verde acreano e a certeza de que a floresta tem narradores jovens e atentos. Próximo passo: ver essa geração, que conecta o MoMA à floresta, plantando novas narrativas sobre o Norte do mundo e provando que a Amazônia cabe em qualquer sala de estar, em Nova York ou em Rio Branco.

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◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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