Acre testa jornada 5x2 antes de reforma nacional da semana de trabalho
Rede de varejo em Rio Branco relata aumento de produtividade com 85 funcionários em escala de cinco dias; Congresso avança na redução da jornada para 40 horas.
A Câmara dos Deputados aprovou na quarta-feira (27) a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais — uma mudança estrutural na legislação trabalhista que já antecipa seus efeitos práticos no chão de fábrica e no varejo do Acre, onde uma rede de supermercados em Rio Branco testa a escala 5x2 com 85 colaboradores. A proposta, que passou por dois turnos com ampla margem (472 votos a favor e 22 contra no primeiro; 461 a 19 no segundo), institucionaliza uma tendência que o mercado local busca validar na prática: a correlação direta entre descanso e eficiência marginal do trabalho.
Para colocar o dado do Acre em perspectiva: enquanto o debate nacional gira em torno da redução da jornada máxima, o desafio econômico regional é manter a competitividade em um estado onde o custo logístico já encarece o produto final. No experimento da rede de supermercados na capital acreana, a migração para o 5x2 não é apenas uma mudança de horário, mas uma tentativa de otimização do ativo mais caro do comércio: a mão de obra formal.
Segundo Jônatã Zanconatto, gerente de Recursos Humanos da empresa, os trabalhadores nas duas unidades piloto apresentaram melhora na qualidade do serviço após a adaptação. Na tradução econômica desse relato, o que ocorre é uma tentativa de reduzir o custo da fadiga. Trabalhadores submetidos a jornadas extensas, como a escala 6x1, tendem a apresentar queda de produtividade nas horas finais do expediente e maior propensão a erros operacionais e faltas (absenteísmo). No Acre, onde a taxa de rotatividade no comércio historicamente supera a média nacional devido à competição com projetos públicos e informais, reter o funcionário garantindo-lhe dois dias de folga pode ser uma estratégia de redução de custos de reposição (turnover).
Contudo, a análise técnica exige cautela antes de declarar a vitória do 5x2. A transição de 44 para 40 horas implica, matematicamente, uma redução de quase 10% na disponibilidade de horas homens por semana. Para que o nível de produção se mantenha, a produtividade por hora precisa aumentar na mesma proporção — ou a empresa precisa contratar mais pessoas para cobrir o gap. No modelo testado em Rio Branco, a folga do funcionário é coberta pela escala de colegas, o que exige um gerenciamento de força de trabalho apurado para não gerar horas extras, que onerariam a folha de pagamento em cerca de 50% sobre o valor da hora normal.
Comparando-se com o Sudeste, onde a automação comercial já está mais difundida, o varejo do Norte ainda depende fortemente do trabalho manual operacional. A produtividade no Acre, portanto, é mais sensível ao fator humano. Se o descanso adicional preserva a saúde física e mental, evitando afastamentos por LER (Lesões por Esforços Repetitivos) ou problemas de saúde mental, o ganho de longo prazo para a Previdência e para a economia local pode ser significativo. Trabalhador mais descansado também é consumidor mais ativo no comércio local durante o fim de semana prolongado, injetando dinheiro na economia de bairros periféricos de Rio Branco.
A aprovação da PEC pelo Congresso dá um sinal verde para essa reestruturação, estipulando um prazo de transição de até 14 meses. A próxima etapa é o Senado, onde o texto deve ser votado no segundo semestre. Enquanto a lei não sai, o teste feito no Acre serve como indicador precoce: se a conta fechar entre custo de mão de obra e eficiência, o setor privado regional pode antecipar a reforma antes mesmo dela ser obrigatória.
Renato Lobo
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



