Carta da Amazônia cobra pavimentação de rodovias e dragagem para reduzir custo-logístico
Documento entregue ao governo federal alerta que trechos abandonados e a falta de dragagem encarecem o frete na região em até 30% em comparação ao Centro-Sul.
O custo de uma mercadoria produzida na Amazônia pode ser até 30% maior apenas por causa da deficiência logística — um déficit estrutural que representantes de 28 entidades buscam corrigir com a entrega da "Carta da Amazônia" nesta sexta-feira (29), em Manaus. O documento, lançado durante o encerramento do TranspoAmazônia 2026, reúne reivindicações urgentes para a recuperação de seis rodovias federais e a garantia de navegabilidade dos rios, apontados como os principais entraves para o desenvolvimento econômico regional.
Para colocar em escala: enquanto o produtor de grãos do Mato Grosso desfruta de uma malha pavimentada que reduz o frete para menos de 10% do valor do produto, o produtor do Pará ou do Amazonas enfrenta trechos de terra e estradas em estado de abandono. A "Carta da Amazônia" lista a BR-319 (Manaus-Porto Velho), BR-174 (Manaus-Boa Vista), BR-364, BR-153, BR-163 e a BR-230 (Transamazônica) como prioridades absolutas. O texto alerta que a falta de manutenção dessas vias isoladas isola cidades e encarece a cesta básica, since o transporte rodoviário ainda é responsável por mais de 60% da movimentação de cargas de longo prazo no país, segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT).
O impacto não é apenas no campo. A Zona Franca de Manaus, que importa insumos para transformar e exportar, depende da BR-174 e da fluidez das águas para receber peças e enviar eletroeletrônicos. Quando a BR-319 é interditada no período de chuva — algo que ocorre anualmente em seus cerca de 400 km de trecho de terra —, o desvio para Rondônia adiciona dias ao percurso e toneladas de combustível ao custo final. O documento pede a retomada do pavimento asfáltico da 319 não como uma obra nova, mas como uma questão de soberania nacional.
Além do asfalto, a "Carta da Amazônia" dedica atenção crítica ao modal fluvial. A região possui a maior bacia hidrográfica do mundo, mas sofre com a falta de calado nos rios durante a estiagem. As entidades cobram um programa permanente de dragagem no rio Madeira, principal corredor de exportação do norte de Mato Grosso e de Rondônia, e no rio Solimões, vital para o abastecimento de Manaus e do interior do Amazonas. Sem a profundidade necessária, as balsas de granéis líquidos e sólidos operam com 40% a menos de carga, o que incha o frete e repassa o prejuízo ao consumidor final.
"Não se trata de pedir obras faraônicas, mas de garantir a trafegabilidade do que já existe", destaca trecho do documento. O setor produtivo aponta que o descaso histórico com a infraestrutura de transporte cria um 'Custo Brasil Amazônico' que desestimula investimentos industriais fora da capital. Enquanto o Sudeste conta com corredores logísticos integrados, o Norte ainda opera de forma fragmentada, com rodovias que terminam no meio da floresta ou portos fluviais subutilizados por falta de acesso terrestre.
As entidades assinantes da carta incluem federações de indústria, comércio e agropecuária dos sete estados do Norte, além de sindicatos de transportadores. O objetivo é transformar o documento em uma agenda oficial para o próximo Plano Plurianual (PPA) do governo federal. A expectativa é que a cobrança coletiva pressione o Ministério dos Transportes e o DNIT a liberarem recursos contingenciados para emergências em estradas federais, algo que não ocorre na magnitude necessária desde a pandemia.
O próximo passo será a apresentação formal da carta aos ministros da Casa Civil e dos Transportes em Brasília, prevista para o próximo mês. Enquanto isso, o diagnóstico continua: sem a integração física prometida há décadas, a Amazônia continua a perder competitividade na balança comercial, exportando produtos com baixo valor agregado e pagando caro para importar insumos essenciais. A logística, ou a falta dela, segue sendo o maior imposto invisível sobre a economia regional.
Renato Lobo
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



