Amapá tem 27 mil analfabetos, e maioria é idosa que depende de ajuda para ler
Taxa entre pessoas com 60 anos ou mais chega a 19,1%; desigualdade racial é alta no grupo.
Seu Raimundo Nonato, 68 anos, mora na Rua 5, no conjunto Perpétuo Socorro, zona sul de Macapá, e tira do bolso uma caixa de remédio todas as manhãs. Ele espera o neto chegar da escola para saber quantos comprimidos tomar. "Antigamente eu pedia para a vizinha ler a bula, agora quem me ajuda é o garoto", conta o ex-seringueiro, que nasceu no interior de Mazagão e nunca pisou numa sala de aula formal. Seu Raimundo é um entre 27 mil amapaenses que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), não sabem ler nem escrever um bilhete simples.
O levantamento da PNAD Contínua Educação, divulgado nesta sexta-feira (19) com dados de 2025, mostra que o analfabetismo no estado é um fenômeno fortemente marcado pela idade. Embora o Amapá tenha uma taxa geral de 4,5% — abaixo da média nacional —, esse número esconde uma realidade específica: entre a população com 60 anos ou mais, o índice salta para 19,1%. Isso significa que cerca de 15 mil idosos no estado vivem hoje a mesma dependência de Seu Raimundo.
A pesquisa também expõe desigualdades que escapam aos números totais. Quando o recorte é por raça e cor entre os idosos, o analfabetismo atinge 20,7% da população preta ou parda, quase o dobro da taxa registrada entre idosos brancos (11,8%). São pessoas que viveram a infância e adolescência em um tempo em que o Amapá ainda era território federal e as escolas ficavam restritas à capital ou eram inexistentes nas áreas de extrativismo.
No entanto, o cenário muda drasticamente quando se olha para as novas gerações. Se desconsiderarmos os idosos, a taxa de analfabetismo no Amapá cai para apenas 2,3% entre pessoas de 15 a 59 anos. É a prova de que o estado conseguiu universalizar o acesso ao ensino nas últimas décadas, mas ainda carrega a dívida com quem foi deixado para trás. "A gente vivia no roçado, era longe, e meu pai dizia que precisava de braço para enxada, não de livro", lembra dona Francisca Gomes, 72 anos, moradora do bairro Santa Rita. Ela hoje tenta reverter esse quaduro no programa de alfabetização da Prefeitura.
Dona Francisca estuda à noite na Escola Municipal Antônio Gomes Caldas, no Santa Rita. "Ler placa de ônibus eu não consigo, se perco o caminho é um sufoco", relata. A coordenadora do programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) na rede municipal, professora Marta Vieira, explica que o maior desafio não é a capacidade de aprendizado, mas a logística e a autoestima do aluno idoso. "Muitos têm vergonha de chegar na escola e sentar com crianças. Nós separamos as turmas e buscamos trazer a didática para a realidade deles, como ler receita médica ou fazer conta de mercado", explica.
A Secretaria de Estado de Educação (Seduc) oferece o EJA em diversas unidades, incluindo nos bairros do Marabaixo, Beirol e Infraero. As matrículas costumam ser abertas no início de cada semestre letivo, mas a procura ainda é inferior ao número estimado de analfabetos. Os dados do IBGE servem como um alerta para que as políticas públicas focalizem esse público específico, garantindo que a cidadania plena não tenha data de validade.
Quem tem ou um familiar nessa situação pode procurar a escola mais próxima de casa. No bairro do Perpétuo Socorro, a unidade da Rua 7 funciona como polo de inscrição. Documentos necessários são CPF, RG e comprovante de residência. Seu Raimundo, motivado pelo neto, diz que agora vai tentar se inscrever na próxima turma. "Pelo menos para ler o nome do remédio e a letra do rádio", planeja, guardando a caixa de remédios no bolso novamente.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



