Flávio Dino recebe título da UFPA e reata laços familiares com o Pará
Cerimônia no Centro de Eventos Benedito Nunes marcou a homenagem, que resgatou a história do avô do ministro no estado.
Aline Bezerra, 24 anos, estudante do 9º período de Direito da Universidade Federal do Pará (UFPA), chegou às 7h30 da manhã ao Centro de Eventos Benedito Nunes, no Campus Guamá. A agenda dela para esta sexta-feira (19) não tinha aula regular, mas sim uma aula de história viva. Ela queria garantir lugar na primeira fila para ver a entrega do título de Doutor Honoris Causa ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino. "Meu pai é servidor da universidade, cresci ouvindo falar da importância da UFPA para o estado. Ver um ministro do STF sendo homenageado aqui, no nosso espaço, é algo que marca a gente", contou Aline, enquanto ajustava a corda da faixa de graduação e olhava para a fila que crescia na porta do auditório.
O sol já batia forte na fachada do prédio quando as portas abriram. O Centro de Eventos Benedito Nunes, espaço que costuma abrigar congressos de ciência, defesas de tese e grandes formaturas, tomou um ar de solenidade federal. Nos bastidores, assessores com fones de ouvido cruzavam com professores de jaleco. A plateia era uma mistura representativa do que é Belém: reitoria em peso, estudantes de diversos cursos, moradores do bairro do Guamá curiosos e autoridades. O ar condicionado do auditório parecia lutar contra o calor humano e a temperatura lá fora, mas a expectativa era mais forte que qualquer desconforto.
A cerimônia aconteceu no Campus Guamá, o coração da universidade. O endereço, Avenida Augusto Corrêa, 1, é referência na cidade. Quem mora em Belém sabe que passando por ali é sempre ver movimento de estudantes, o famoso ponto de ônibus na entrada e a feira de artesanato nos dias de evento. Hoje, o movimento era de ternos e becas.
Quando Flávio Dino subiu ao palco, acompanhado do reitor da UFPA, o aplauso foi uníssono e durou quase um minuto. Mas o que prendeu de fato o fôlego de quem estava ali não foi apenas a presença do ministro do STF. Foi a história pessoal que ele trouxe na bagagem, conectando o Brasil de hoje ao Pará de outrora. O título de Doutor Honoris Causa é a mais alta distinção que a universidade concede, aprovada pelo Conselho Universitário por proposta do Instituto de Ciências Jurídicas (ICJ). O reconhecimento veio por causa da trajetória de Dino em áreas cruciais para o Norte: justiça social, combate ao desmatamento e questões fundiárias na Amazônia.
Em um dos momentos mais comoventes da manhã, Valena Jacob Chaves, diretora-geral do ICJ, subiu ao palco. Nas mãos dela, uma pasta amarelada pelo tempo. Não era apenas um protocolo cerimonial. Ela entregou a Dino um dossiê meticuloso, contendo documentos escolares do avô do ministro, Nicolau Dino. Segundo a diretora, Nicolau estudou na antiga Faculdade Livre de Direito do Pará, instituição que é uma das raízes da própria faculdade de Direito da UFPA. O neto, agora a mais alta autoridade do Judiciário brasileiro, segurou os papéis do avô como se segurasse um pedaço de sua própria origem reencontrada.
"A alegria pela homenagem é proporcional ao tamanho do Pará", afirmou Dino ao microfone, visivelmente emocionado. Ele relembrou que a família Dino saiu do estado rumo ao Maranhão antes de ele nascer, mas que as raízes e a memória do avô em Belém sempre fizeram parte da narrativa familiar. Para os estudantes de Direito lotando as cadeiras, ver essa conexão foi uma prova concreta de que as carreiras jurídicas construídas com responsabilidade no norte começam nas salas de aula daqui.
O professor Carlos Mendes, que leciona Teoria do Estado na UFPA há 20 anos e estava na plateia, avaliou o momento como pedagógico. "Nós discutimos muito o papel do STF na sala de aula. Hoje, ver um ministro sendo reconhecido justamente por sua atuação na Amazônia traz uma realidade para nossos alunos. Mostra que eles podem atuar em qualquer lugar, mas precisam olhar para onde pisam", disse Mendes no intervalo.
A solenidade terminou por volta do meio-dia, deixando um rastro de debates nos corredores do campus. O estacionamento esvaziou devagar, com estudantes comentando o discurso enquanto caminhavam para os pontos de ônibus na Avenida Augusto Corrêa. O Campus Guamá voltou à sua rotina de aulas e pesquisas, mas com uma história a mais para contar.
Quem quiser visitar o Centro de Eventos Benedito Nunes ou conferir a programação cultural e acadêmica aberta ao público da UFPA, o local fica na entrada principal do campus Guamá. O acesso é fácil pelas linhas de ônibus que passam pela avenida, e a portaria informática fornece mapas e horários dos eventos. A universidade é um espaço da cidade, e portas como essa, que se abriram hoje, mostram a importância de manter a conexão entre a academia e a sociedade paraense.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



