Amapá domina Prêmio Mapinguari com quadrinhos e plataforma de zines
Webquadrinho 'Meio Período' e 'Biblioteca de Zines' levam prêmios nacionais e destacam a produção autoral independente do Amapá no cenário nacional.
O cheiro de papel impresso ainda marca a memória de quem viveu o boom dos fanzines, mas no Amapá a coisa agora pulou para o digital com a rapidez de um traço de nanquim. Vito Cantuária, de 25 anos, melhor conhecido como Icehito, desenha sentado na mesa da sala de casa em Macapá, olhando para a tela do computador enquanto tenta descompactar as situações absurdas do cotidiano de trabalho. Foi assim que nasceu o "Meio Período", um webquadrinho que recentemente levou o primeiro lugar no Prêmio Mapinguari, o maior prêmio de quadrinhos da Região Norte.
O Prêmio Mapinguari não é apenas uma estátua de madeira; é o reconhecimento de que a Amazônia produz narrativas que vão muito além da floresta. Em duas categorias, o Amapá dominou o debate. Enquanto Icehito gabaritava a categoria Webquadrinho contando as peripécias de uma estagiária esperta que enfrenta chefes rígidos, a designer Luana Góes, de 29 anos, conquistava o troféu de Melhor Subproduto com a "Biblioteca de Zines", uma plataforma digital que funciona como um acervo vivo das produções independentes locais.
A estagiária do "Meio Período" não tem rosto definido, mas tem a atitude de quem já viu de tudo em repartições públicas e privadas de qualquer capital do Norte. "É feito no formato de tiras de quatro quadros fixos, algo feito tanto para acelerar a produção quanto como desafio pessoal", explica Icehito, que é formado em Design pela Universidade do Estado do Amapá (UEAP). Influenciado pela dinâmica dos mangás e pela estética dos animes, ele traduz a bagunça do trabalho corporativo para uma linguagem visual que qualquer um scaneia em três segundos no celular.
Do outro lado da cidade, ou talvez na mesma rede, Luana Góes anda colecionando essas vozes dispersas. A "Biblioteca de Zines" não é um prédio com cheiro de livro velho; é um site, um endereço na nuvem onde os autores amapaenses podem subir seus trabalhos sem depender de editoras de São Paulo. É o underground feito de bit. "A premiação valoriza quadrinhos e projetos independentes da Região Norte e reconhece o trabalho de artistas que narram as pluralidades da Amazônia", destaca o edital do prêmio, que busca escapar do estereótipo da floresta para abraçar o urbano, o marginal e o tecnológico.
O que une Icehito e Luana é a vontade de contar histórias sem pedir licença. Não é a Amazônia dos cartões postais, é a Amazônia do escritório, da lan house, do fanzine xerocado às escondidas. O Mapinguari, essa lenda que assombra a floresta, aqui se transformou em símbolo de validação para quem desenha nos cantos da sala.
Quem quiser conferir a estagiária sem nome pode acessar as tiras do "Meio Período" diretamente nas redes sociais do artista. Já para mergulhar na produção independente mais crua do estado, basta entrar na "Biblioteca de Zines" e navegar pelos títulos. A editoração norte finally saiu da margem e foi para o servidor.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



