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Nortícia CulturaFestival do Jaraqui

Alta velocidade das rabetas embala o tradicional Festival do Jaraqui em Borba

No interior do Amazonas, provas de motor-popa dividem espaço com o concurso de limpeza de peixe e o cabo de guerra.

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Karina Pinheiro
Amazonas · AM
28 de mai. de 2026
publicado
2 min
de leitura · 505 palavras
Rabeta de madeira com motor desliza em alta velocidade pelo rio durante competição no Amazonas.
No interior do Amazonas, provas de motor-popa dividem espaço com o concurso de limpeza de peixe e o · Foto: Redação Nortícia

O ronco ensurdecedor do motor de popa corta o silêncio da mata antes mesmo do sol ficar forte. Na Vila do Canumã, às margens do rio Madeira, o ar fica carregado com um misto de cheiro de óleo diesel 2 tempos e o aroma do peixe recém-pescado. É o aviso sonoro de que a prova mais esperada do 27º Festival do Jaraqui vai começar. As rabetas, feitas de madeira rugosa e alumínio lustroso, tremem na amarração, prontas para descolar a quilômetros por hora sobre a água escura.

A região de Borba, no interior do Amazonas, respira rio. O festival não é um evento de calendário turístico importado; nasceu da necessidade de celebrar o que sustenta a região. O jaraqui, peixe rei da mesa local, dá nome à festa, mas a alma do evento é a demonstração de força e habilidade no manejo das embarcações. O vídeo que viralizou nas redes sociais mostra apenas uma fração da energia: o arranque bruto das lanchas, mas não consegue capturar a vibração que percorre a galera apinhada na praia fluvial.

As rabetas não são barcos de luxo. São ferramentas de trabalho, tartarugas de casco rígido que enfrentam as corredeiras e as calhas dos igarapés. Transformá-las em máquinas de corrida exige intimidade. Os pilotos, homens e mulheres que conhecem cada curva do rio, não usam macacões de fibra de carbono. Eles estão de bermuda, chinelo e, às vezes, sem camiseta, guiando com o toque de quem guia a canoa de pesca no dia a dia. A organização, simples e eficiente, abre inscrições na hora. É a democracia da água.

Quando o ruído dos motores cessa, a competição muda de tom, mas não de intensidade. O cabo de guerra puxa a adrenalina para a terra firme. Duas equipes, corda grossa, pés descalços afundados na areia, torcida gritando nomes e xingamentos leais. É a força da roça se medindo. E depois, há a delicadeza da competição de preparo de peixe. Uma arte que dispensa facas de chef, exigindo apenas o bom cutelo de açougueiro e a prática de anos. Retirar as espinhas do jaraqui sem perder a postura do filé é um diploma que muitas famílias do Canumã ostentam com orgulho.

A socióloga Beatriz Mendes, que estuda festividades ribeirinhas no Médio Amazonas, observa que eventos como o Festival do Jaraqui são fundamentais para a manutenção do tecido social. "Não é só o peixe ou a corrida. É o pretexto para a comunidade se ver inteira, contar as novidades, reafirmar pertencimento. A rabeta é o símbolo da mobilidade, e o festival é o símbolo da parada, do encontro", explica.

O Festival do Jaraqui aconteceu na Vila do Canumã, distrito de Borba (AM), um ponto acessível principalmente por via fluvial. Para quem pretende conhecer a região no próximo ano, a dica é acompanhar o calendário local: a festa acontece sempre entre a piracema e a vazante. Enquanto isso, o vídeo das rabetas continua rodando na internet, mas o som real do Madeira só se ouve lá, onde o motor ronca e o peixe frita.

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◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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