Ana Clézia deixa legado de fé e música gospel no Tocantins
Cantora morre aos 38 anos em Palmas após complicações de saúde; dupla com Laudicéia marcou gerações cristãs no estado.
O acorde final do teclado eletrônico desceu no silêncio da Unidade de Terapia Intensiva, diferente do refrão vibrante que costumava ecoar nas igrejas de madeira e no concreto dos auditórios de Palmas. Ana Clézia, a voz que liderava o ministério gospel Ana Clézia e Laudicéia, partiu aos 38 anos, deixando no ar a nostalgia de uma fé cantada com unhas e carne. No cenário evangélico do Tocantins, onde o louvor muitas vezes é o alimento que precede o almoço de domingo, a ausência dela se faz sentir como um ritmo faltando na bateria da banda local.
Ana não era uma estrela distante, iluminada por holofotes de TV aberta ou capas de revista nacional. Sua luz era a de quem pisa no chão de tijolos das congregações do interior e dos bairros da periferia. Conhecida pela dedicada evangelização através da música, ela dividia o palco com a parceira Laudicéia, formando uma dupla que se tornou referência de afinidade espiritual e melódica no estado. A morte, causada por complicações graves de saúde — pneumonia associada à ventilação mecânica e pressão arterial baixa — após uma internação prolongada em coma, interrompeu fisicamente a carreira, mas não a reverberação de sua obra.
O pastor Glayson Soares, que esteve nos bastidores da produção do primeiro CD do duo, relembra Ana como uma figura de mansidão e força. "Era uma amiga leal e, como cantora, uma verdadeira adoradora", afirmou. A definição condensa a essência de Ana: a música nunca foi um fim em si mesma, mas um meio de conexão com o divino. Nas últimas semanas, a cantora removeu o véu sobre seu sofrimento ao postar imagens do tratamento, mostrando hematomas e o corpo fragilizado. Nem mesmo a dor física abafou sua disposição espiritual. "Estou viva e vamos pra guerra porque o nosso general é Cristo e ele nos garante vitória", declarou ela aos seguidores em abril, transformando a luta pela vida em um testemunho público de resistência.
A música gospel tocantinense carrega uma particularidade: o misto de tradição e o calor humano do cerrado. É um gênero feito de casa, de família, de comunidade. Ana Clézia personificava isso. Ao conciliar a vida de mãe com as viagens de ministério, ela mostrou ser possível servir a Deus e à família sem perder a doçura no olhar. Seu legado fica nos álbuns gravados, nas músicas que continuam a ser tocadas nas rádios locais e, principalmente, na memória daqueles que, ao ouvi-la, sentiam que as orações deles estavam sendo cantadas de volta.
Para os fãs e amigos, a despedida aconteceu com o sepultamento no Cemitério Jardim da Paz, mas a homenagem perdura. O trabalho de Ana Clézia e Laudicéia permanece acessível nas plataformas digitais. Basta apertar o play para ouvir novamente a esperança que ela tantas vezes vocalizou. No Tocantins, onde o céu é amplo e a fé se espalha como o mato no inverno, a voz de Ana segue viva, agora como parte do coro celestial que ela tanto pregou.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



