Cirurgiã nascida no Marajó e referência mundial em câncer morre em SP
Nascida em Ponta de Pedras, Angelita Habr-Gama revolucionou o tratamento de câncer e foi pioneira na USP.
Dona Angelita Habr-Gama, 90 anos, olhava pela janela do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e talvez visse, na curva do pinheiro ou na cinza do concreto de São Paulo, a cor escura das águas do Arari. Ela partiu no sábado, deixando silêncio nos corredores onde o barulho da vida costumava ser alto e claro. Nascida em Ponta de Pedras, no meio da ilha que o rio engole e solta todo dia, ela levou a força da lama para a assepsia da sala cirúrgica.
Não foi fácil para uma mulher da Amazônia abrir as portas da Faculdade de Medicina da USP. Ela foi a primeira titular de uma especialidade cirúrgica, entrando numa sala cheia de homens, de aventais brancos e vozes grossas, e impondo a delicadeza de quem sabe que a vida é um tecido frágil. Angelita não tratava apenas o câncer de reto; ela tratava o medo da mutilação. Desenvolveu a técnica que o mundo copiou: o "esperar para ver". Em vez de cortar primeiro, ela dava tempo ao corpo. Quem sabe o remédio não serve antes do bisturi?
Doutora Angelita, como a chamavam com reverência, acreditava que o corpo tem sua própria oração, uma capacidade de cura que a cirurgia as vezes apressa demais. Ela ganhou o mundo com essa ideia. A revista Forbes chamou ela de influente; a Universidade de Stanford a botou no topo 2% dos cientistas do planeta. A American Surgical Association, lá nos Estados Unidos, abriu as portas para ela. Mas o certificado que ela talvez guardasse no fundo da gaveta era o passaporte paraense, a lembrança do cheiro do mato e do gado solto na ilha.
No Marajó, dizem que o tempo é outro. Em Ponta de Pedras, onde ela nasceu, a maré quem comanda a vida. Ela levou essa paciência para o centro de São Paulo. Pacientes de todo o país vinham atrás dela, não só da fama, mas da certeza de que aquela mulher, de fala calma e olhar atento, via a pessoa doente por inteiro, não só o intestino doente. Era a matriarca da medicina, a mãe que cuidava dos filhos alheios com a competência de quem já havia visto tudo.
A ciência é feita de números, mas a medicina é feita de encontros. Angelita fez milhares de encontros. E no último dia de maio, o encontro foi com o silêncio. O corpo cansou, a máquina parou, mas o rastro fica. Fica nos pacientes que caminham sem sequelas, fica nas alunas que ela formou, fica na certeza de que uma menina do Marajó pode virar a maior especialista do mundo sem perder a ternura de ser quem é.
O velório acontece na USP, no meio de livros e microscópios. Mas o pensamento aqui atravessa o Atlântico Sul e vai para o norte. Para a casa de farinha, para o rio onde ela talvez tenha aprendido a primeira lição: que a água passa, a pedra fica, e a bondade da gente deve ser maior que a dor.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



