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Nortícia BoaLongevidade na Selva

Onça mais velha do Brasil completa 25 anos em festa no Zoo de Manaus

Onça-pintada Guardião celebra 25 anos no CIGS com bolo de carne e cuidado especial, simbolizando a longevidade e o respeito ao animal mais idoso em cativeiro no país.

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Padre Bruno Sena
Amazonas · AM
31 de mai. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 645 palavras
Onça-pintada idosa consome carne em recinto do Zoológico do CIGS em Manaus.
Onça-pintada Guardião celebra 25 anos no CIGS com bolo de carne e cuidado especial, simbolizando a l · Foto: Redação Nortícia

Guardião, 25 anos, estende as patas dianteiras sobre a laje morna do recinto enquanto o sol da manhã começa a subir por trás das árvores do Zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva, em Manaus. Ele não tem pressa. O pelo amarelo-ocre, já desbotado pelos anos, brilha com a luz; as manchas pretas parecem tatuagens que marcam cada temporada que ele sobreviveu. Seus olhos, amendoados e calmos, seguem o movimento do tratador que se aproxima carregando uma bandeja de metal.

Neste domingo, a rotina do zoológico parou por alguns minutos para uma celebração silenciosa. Guardião, a onça-pintada mais velha em cativeiro no Brasil, completava um marco que poucos da espécie alcançam: vinte e cinco anos de vida. Na mata fechada, a vida de um predador é curta, violenta e decidida pela força dos dentes e garras. Aqui, dentro das grades do CIGS, a vida de Guardião foi estendida pelo zelo humano, pela comida garantida e pela ausência de inimigos naturais, trocando a liberdade da caça pela segurança do descanso.

Nascido em Tabatinga, em março de 2001, na fronteira tripla com a Colômbia e o Peru, ele traz na alma o rio Solimões e a densidade da floresta virgem. Chegou ao quartel em 2007, ainda um jovem felino cheio de energia, e com o tempo transformou-se no símbolo do lugar. O que antes era vigor de animal selvagem amansou-se numa velhice tranquila. Ele não anda mais por todo o recinto; escolhe os pontos mais altos, onde a brisa bate, e ali fica, observando o mundo com uma paciência que só os muito velhos possuem.

Para homenagear as duas décadas e meia, a preparação foi simples mas cheia de significado. Não houve cantos de parabéns, nem velas apagadas, mas houve um “bolo”. Era uma montagem criativa de pedaços de carne crua, seu prato favorito, dispostos em camadas sobre uma base de folhas verdes. Era a festa adaptada para quem não come doce, mas entende a linguagem da oferta. “Hoje ele é o nosso animal mais paparicado do Cigs”, comentou um dos militares da equipe, observando o felino aproximar-se. “Para a gente, é uma alegria ver ele saudável. É como cuidar de um idoso da família”.

Familiares que visitavam o zoológico paravam na grade. Crianças apontavam, surpresas com o tamanho do bicho, mas os pais explicavam baixinho que aquele ali era um ancião, alguém que merecia silêncio e não gritos. O respeito nasce dessas pequenas correções, de entender que o tempo envelhece todos os seres, não apenas a nós, humanos.

Guardião sentou-se à frente da oferenda. Não se jogou sobre a comida como faria um filhote ou um adulto faminto. Ele cheirou, analisou, e então começou a comer devagar, escolhendo os pedaços mais moles, adequados à sua dentição gasta. Ao redor, o enriquecimento ambiental — troncos novos para arranhar, cheiros de especiarias espalhados pelo chão — estimulava seus sentidos, lembrando-o de que, mesmo velho e cativo, ele ainda era uma onça.

Há uma teologia nessa cena, algo que fala do cuidado com o criado, seja ele humano ou animal. O Zoológico do CIGS, espaço de estudo e sobrevivência, tornou-se um asilo para este rei da floresta. A festa era o reconhecimento de que a vida tem valor mesmo quando a força física se vai. Guardião, ao terminar de comer, lambeu a pata e passou-a pela face num gesto de limpeza lento e ritualístico.

O sol agora estava alto, trazendo o calor típico de Manaus. Guardião levantou-se com dificuldade, esticou as costas e caminhou até a sombra do abrigo de madeira. A festa acabara. O bolo sumira. O que restava era o dia, longuíssimo, e a certeza de que, ali dentro daquele círculo de proteção, ele seria respeitado até o último suspiro. Ele se deitou, pôs a cabeça entre as patas e fechou os olhos, enquanto o barulho da cidade parecia ficar muito longe, abafado pela floresta.

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◆ Repórter · Nortícia Boa

Padre Bruno Sena

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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