Do abuso às raízes: acreana transforma viveiro em recomeço em Rio Branco
Alcenira de Almeida Silva superou período nas ruas e hoje lidera associação de pequenos negócios através do Renascer Flores.
Alcenira de Almeida Silva, 47 anos, limpa o barro encrustado nas unhas com a ponta de uma faca pequena. O viveiro dela, o Renascer Flores, fica no fundo de um terreno em Rio Branco. Ali, onde a terra é úmida e escura, ela planta o que colheu de coragem depois de perder quase tudo. O cheiro de adubo orgânico mistura com o da poeira da rua.
Durante o dia, o trabalho é cuidar das mudas de orquídea, das comigo-ninguém-pode e das samambaias. Ela toca cada vaso como quem toca um ombro. à noite, o uniforme muda: ela vira segurança de eventos e feiras. É nos turnos da madrugada, sob a luz amarela de postes, que a memória às vezes volta aos três meses em que viveu nas calçadas da capital acreana. Não era dormir, era aguentar o olhar dos outros e o frio do amanhecer.
"Saí de um relacionamento de dezessete anos. Quando a gente sai, a gente não tem nada. Só a roupa do corpo", ela conta, sem baixar os olhos. A decisão de partir cortou o fundo do barril, mas foi o único jeito de manter a alma inteira. O nome do negócio não foi escolhido por estética. Renascer é o que fazem as plantas que ela arranca do solo para vender e, principalmente, o que ela fez consigo mesma depois que decidiu não voltar para a casa onde sofria ameaças.
A autonomia, palavra que ela gosta de repetir com força, veio devagar. Começou com um balance de 500 reais para comprar as primeiras ferramentas, um regador e sacos de substrato. O jardim, que era apenas um canto, cresceu. Com ele, cresceu também a vontade de estender a mão. Hoje, o espaço não é só comércio; virou ponto de encontro para outras mulheres. Ela fundou uma associação para fortalecer pequenos empreendedores do bairro, trocando sementes e conselhos.
"A gente tem que se virar de tudo quanto é jeito para poder pagar as contas e continuar vivendo, né? Eu trabalho para isso", diz, enquanto rega uma bandeja de sementes de copo de leite. A água desce e escurece a terra seca. Alcenira fala do futuro com a certeza de quem já viu o fundo do poço e achou uma escada lá embaixo.
O sol começa a se pôr atrás do muro de tijolos, tingindo o céu de um alaranjado pálido. Alcenira guarda o regador, ajeita o cabelo preto preso com um elástico e pensa no plantio de amanhã. Na terra, o que parece morto e seco sempre pode botar uma folha nova de novo, bastar ter paciência e uma mão disposta a cavar.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



