Ex-presidiário cursa medicina e volta a penitenciários para pregar mudança
Wallace William da Costa, 44 anos, trocou a cadeia pela sala de aula da UFNT e agora inspira internos com palestras sobre ressocialização.
Wallace William da Costa, 44 anos, ajeita a gola do jaleco branco diante do espelho do banheiro da casa em Araguaína. O tecido é leve, mas parece pesar sobre os ombros com a dignidade de um manto. Ele faz um movimento lento para esticar a peça, checa se o crachá de estudante do oitavo período de medicina está no lugar certo e respira fundo. Não é apenas um exame que o espera hoje, é o retorno a um mundo que ele conhece demasiado bem, mas pelo qual agora entra de cabeça erguida.
Há seis anos, Wallace cruzou o portão de uma penitenciária pela última vez como detento. Hoje, ele volta. Não para ficar, mas para falar. A Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT) lhe deu o livro, a canção e a esperança, mas foi a vida que lhe ensinou a matéria da resiliência. Natural de Minas Gerais, ele construiu em solo tocantinense a nova estrutura da sua existência, tijolo por tijolo, aula por aula, longe das ruas que um dia o levaram à prisão.
O caminho de retorno começou cedo, ainda atrás das grades, onde a leitura se tornou o único horizonte possível. Quando saiu, não se contentou com o pouco. Formou-se em enfermagem, trabalhou, cuidou de corpos alheios enquanto o próprio coração ainda se curava dos golpes do passado. Mas a fome por saber mais era insaciável. Ingressar na medicina foi o passo seguinte, o desafio lançado ao próprio espírito: provar que o homem não é o seu erro, mas a sua capacidade de se levantar.
Em casa, a rotina é movida pelas quatro filhas e pela esposa, que o veem chegar cansado das aulas e dos plantões. Elas são o seu porto seguro, a prova de que a vida selou um trato com ele. Wallace já sabe para onde vai: foi aprovado num concurso público em Minas Gerais e aguarda o fim do internato para assumir o cargo de médico. É uma vitória que não cabe apenas no currículo, mas que transborda na mesa de jantar, nas conversas sobre o futuro, na certeza de que o ciclo se fechou para abrir uma nova porta.
Mas Wallace não guarda essa história só para si. Nas palestras que realiza dentro de presídios, ele encontra jovens que um dia foram ele. Olha nos olhos deles — olhares muitas vezes perdidos, céticos — e fala não de teoria, mas de carne e osso. Fala do suor da faculdade, da dificuldade de equilibrar família e estudo, da dor de ter o nome manchado e o trabalho de lavá-lo com honestidade. Ele se oferece como testemunho viva de que a cela não é o fim da linha.
"A educação muda qualquer um. Quando decidi deixar as pessoas saberem da minha história, sabia que teria muita crítica, mas, se essa história tocasse uma pessoa para mim já valeria a pena. Se uma pessoa se inspirar a mudar, é gratificante, independente do que vou passar daqui para frente", conta Wallace, com a voz firme, sem pressa, como quem recita uma oração que aprendeu na própria pele.
A luz do final da tarde invade a sala onde ele estuda, iluminando os livros espalhados pela mesa. Wallace fecha o caderno, guarda a caneta e olha pela janela. A cidade de Araguaína segue lá fora, barulhenta e viva, rumo de caminhões e buzinas, mas aqui dentro, no silêncio do preparo para o amanhã, reina a paz de quem soube atravessar a tempestade e agora se oferece como barco para os outros.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



