Avó comemora cura de neta com pé torto no Amapá: 'Viu ela usar sapato'
Aila Maria venceu o Pé Torto Congênito com tratamento gratuito pelo SUS. Avó Maria de Nazaré celebra a vitória de quatro anos.
Maria de Nazaré Gomes, 46 anos, estende a mão e ajusta a tira do sapatinho vermelho no pé direito da neta. É um gesto pequeno, de quem ajeita uma meia ou alisa uma saia, mas para ela carrega o peso de quatro anos de espera. Aila Maria, de apenas quatro anos, pula no calor da calçada em Macapá, os dois pés firmes, o calcanhar tocando o chão como sempre deveria ter tocado.
Há pouco tempo, essa cena era um desejo distante, guardado no fundo do peito como uma promessa difícil. Aila nasceu com Pé Torto Congênito, uma deficiência comum que torce os pés para dentro e rouba da criança o direito de pisar plano. Sem tratamento rápido, o corpo se adapta ao erro, e a dor passa a ser a companheira de caminhada. Maria, que criou a menina desde os seis meses de vida, via aquilo e sentia um aperto no peito, misturado com a falta de dinheiro para pagar especialistas.
Foi uma vizinha, num papo de porta, quem falou do médico. Maria foi ao consultório do ortopedista Roberto Dourado levada pelo desespero, buscando apenas um laudo, um papel que lhe garantisse algum benefício social para comprar remédio. Não acreditava que a cura pudesse entrar pela porta da casa dela. Mas o caminho ali era outro. “Foi Deus que me enviou”, lembra ela, repetindo as palavras que ouviu naquele dia.
O doutor Dourado explicou sobre o método Ponseti, uma técnica de gessos e correções graduais feita pelo SUS no Amapá. Maria admitiu, com a vergonha de quem não tem o que oferecer, que não tinha condições de custear o tratamento. A resposta do médico foi um gesto de acolhimento: o serviço seria gratuito. A avó aceitou, e começou então a peregrinação semanal ao hospital, trocando gesso, vendo a neta chorar com o desconforto e depois sorrir com o alívio.
Aila faz parte de um grupo de mais de cem crianças atendidas por esse serviço público no estado. O tratamento é lento, exige paciência de santo e a confiança de quem planta sem ver a flor brotar de imediato. Foram meses de tenotomia — um pequeno corte no tendão — e noites usando órteses para manter o pé no lugar. Maria acompanhou tudo, dormindo pouco, rezando muito, mas sempre com a certeza de que o passo seguinte seria mais leve.
“Sempre quis que ela usasse sapato”, diz Maria, olhando a menina que agora corre sem olhar para os próprios pés. Não é só sobre estética ou moda, é sobre dignidade, sobre pisar no mundo sem vergonha nem dor. O milagre aqui teve a cor de um avental branco e a persistência de uma avó que não desistiu de ver a neta andar direita.
O sol começa a baixar sobre a rua. Aila quer tirar o sapato novo para brincar na terra. Maria ri, um som rouco mas feliz, e autoriza a bagunça. O par de tênis fica no degrau da porta, duas conchas vazias esperando o retorno de quem finalmente aprendeu a correr.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



