Ex-detento e estudante de Medicina volta ao presídio para inspirar ressocialização em Araguaína
Wallace William da Costa, de 44 anos, usou própria trajetória para mostrar aos detentos que a mudança de vida é possível.
Wallace William da Costa, 44 anos, ajusta o crachá da Universidade Federal do Norte do Tocantins antes de atravessar o portão da unidade prisional em Araguaína. O jaleco branco está limpo, passado, contrastando com a memória dos uniformes que ele vestiu anos atrás. Ele respira fundo, sente o peso do ar condicionado que nunca é suficiente, e entra. Não vem como visitante comum, e muito menos como detento. Vem como testemunho.
Dentro, há uma sala e dezenas de homens sentados. Wallace está no oitavo período de Medicina. Veio com colegas, com o suporte do Laboratório de Saúde Única e Epidemiologia, falar de hipertensão, de prevenção, de saúde do homem. Mas antes de abrir o slide sobre o coração, ele teve que abrir o próprio peito. Mostrar as cicatrizes que ninguém vê. Há vinte anos, o futuro dele parecia escrito nas páginas de um inquérito policial, não em um caderno universitário. Ele foi preso por tráfico. Conheceu o fundo do poço para saber onde fica a saída.
A transição não foi mágica, foi uma caminhada dura, dia após dia, prova após prova. Agora, ele traz para dentro daquele muro a prova viva de que a ressocialização não é apenas um conceito de papel. É o corpo que senta na cadeira da faculdade, o mesmo corpo que ocupou a cela. O estigma de ex-detento é uma tinta que tenta mancar para sempre, mas ele escolheu vestir a cor da esperança, sem ufanismo, apenas com a constância de quem estuda para um exame difícil.
"Se eu receber 10 mil críticas e uma pessoa só se inspirar e perceber que pode mudar de vida, para mim já valeu a pena", Wallace disse ao microfone, com a voz calma de quem já ouviu muitos gritos. "A intenção não é mostrar que sou melhor que ninguém, porque não sou. É mostrar que tem outra saída, outra vida". Ele não pregava de cima de um púlpito. Falava de igual para igual, de quem olhou o abismo e decidiu construir uma ponte.
Quando a palestra terminou, os técnicos recolheram o equipamento, mas os corpos permaneceram ali. Detentos se aproximaram, não para pedir remédio, mas para perguntar como é a prova de ingresso, como é a rotina de aulas. O assunto que era biologia virou existência. Wallace respondeu um por um, sentindo o chão firmar sob os pés.
Ao deixar a unidade, o sol do fim da tarde tingia o céu de um laranja profundo, típico do cerrado do Tocantins. Wallace guardou os apontamentos na mochila. Atrás dele, o portão se fechava, mas o que ficou dentro não eram grades. Era a imagem de um homem de jaleco branco dizendo que o caminho de volta existe.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



