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Ex-detento e estudante de Medicina volta ao presídio para inspirar ressocialização em Araguaína

Wallace William da Costa, de 44 anos, usou própria trajetória para mostrar aos detentos que a mudança de vida é possível.

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Padre Bruno Sena
Tocantins · AM
28 de mai. de 2026
publicado
2 min
de leitura · 447 palavras
Wallace William da Costa fala para grupo de detentos em sala de aula de unidade prisional.
Wallace William da Costa, de 44 anos, usou própria trajetória para mostrar aos detentos que a mudanç · Foto: Redação Nortícia

Wallace William da Costa, 44 anos, ajusta o crachá da Universidade Federal do Norte do Tocantins antes de atravessar o portão da unidade prisional em Araguaína. O jaleco branco está limpo, passado, contrastando com a memória dos uniformes que ele vestiu anos atrás. Ele respira fundo, sente o peso do ar condicionado que nunca é suficiente, e entra. Não vem como visitante comum, e muito menos como detento. Vem como testemunho.

Dentro, há uma sala e dezenas de homens sentados. Wallace está no oitavo período de Medicina. Veio com colegas, com o suporte do Laboratório de Saúde Única e Epidemiologia, falar de hipertensão, de prevenção, de saúde do homem. Mas antes de abrir o slide sobre o coração, ele teve que abrir o próprio peito. Mostrar as cicatrizes que ninguém vê. Há vinte anos, o futuro dele parecia escrito nas páginas de um inquérito policial, não em um caderno universitário. Ele foi preso por tráfico. Conheceu o fundo do poço para saber onde fica a saída.

A transição não foi mágica, foi uma caminhada dura, dia após dia, prova após prova. Agora, ele traz para dentro daquele muro a prova viva de que a ressocialização não é apenas um conceito de papel. É o corpo que senta na cadeira da faculdade, o mesmo corpo que ocupou a cela. O estigma de ex-detento é uma tinta que tenta mancar para sempre, mas ele escolheu vestir a cor da esperança, sem ufanismo, apenas com a constância de quem estuda para um exame difícil.

"Se eu receber 10 mil críticas e uma pessoa só se inspirar e perceber que pode mudar de vida, para mim já valeu a pena", Wallace disse ao microfone, com a voz calma de quem já ouviu muitos gritos. "A intenção não é mostrar que sou melhor que ninguém, porque não sou. É mostrar que tem outra saída, outra vida". Ele não pregava de cima de um púlpito. Falava de igual para igual, de quem olhou o abismo e decidiu construir uma ponte.

Quando a palestra terminou, os técnicos recolheram o equipamento, mas os corpos permaneceram ali. Detentos se aproximaram, não para pedir remédio, mas para perguntar como é a prova de ingresso, como é a rotina de aulas. O assunto que era biologia virou existência. Wallace respondeu um por um, sentindo o chão firmar sob os pés.

Ao deixar a unidade, o sol do fim da tarde tingia o céu de um laranja profundo, típico do cerrado do Tocantins. Wallace guardou os apontamentos na mochila. Atrás dele, o portão se fechava, mas o que ficou dentro não eram grades. Era a imagem de um homem de jaleco branco dizendo que o caminho de volta existe.

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◆ Repórter · Nortícia Boa

Padre Bruno Sena

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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