Grande Coleta de Emaús arrecada eletrônicos para inclusão digital em Belém
Movimento recolhe equipamentos em cinco pontos da capital paraense; material é recondicionado e usado na formação profissional de jovens.
Robson Costa, 42 anos, estaciona o carro com cuidado na calçada da Tv. Dom Romualdo de Seixas, no coração do Umarizal. Abre o porta-malas e começa a retirar caixas de papelão, umas quatro ou cinco. Não é lixo doméstico comum. São monitores, um CPU antigo, teclados amarelecidos pelo tempo e o uso constante. Ele carrega tudo até a mesa montada na calçada, onde jovens de camiseta verde recebem a doação com um sorriso que não é de cortesia, é de alívio.
É sábado, 30 de maio, dia marcado na agenda de Belém para a Grande Coleta do Movimento República de Emaús. Em cinco pontos da cidade, o gesto se repete desde cedo. Gente que guarda eletrônicos velhos em casa, ocupando espaço e juntando poeira, finalmente encontra um destino para aquilo. Mas não é o lixo. É a esperança que ganha forma de plástico e metal.
O material que Robson deixa, assim como o de centenas de outros paraenses, não vai para o aterro sanitário. Ele viaja até o Centro de Inclusão Digital (CID), o projeto que o Emaús mantém desde 2010. Lá, o que uns chamam de obsoleto é desmontado, limpo, testado e, se Deus quiser, recondicionado. Vira ferramenta de trabalho. Vira porta de entrada para o mercado.
No CID, o silêncio é de concentração. Jovens e adultos que estavam à margem do trabalho formal aprendem a segurar um parafuso, a soldar um fio, a entender a lógica da placa-mãe. É um ofício moderno ensinado com paciência de artesão. Quando eles terminam o curso, saem sabendo consertar computadores, mas saem também com a dignidade reparada. É a vida que se recicla junto com as peças.
A campanha deste sábado tem uma meta ambiciosa: passar de uma tonelada de equipamentos. Parece muito, mas numa cidade como Belém, onde o consumo é grande e o descarte é difícil, é apenas uma fração do que dorme nos fundos das casas. O desafio é fazer essa ponte. Trazer de um lado para o outro. O nome Emaús, aliás, lembra exatamente isso: o caminho de volta, o encontro na estrada.
Os pontos de coleta espalham a rede de solidariedade pela malha urbana. No CEDECA, no Umarizal, o movimento começa às nove da manhã. Lá no Polo Joalheiro, nos Jurunas, ocupa o espaço do antigo presídio São José, transformando um lugar que antes fechava pessoas em um espaço que agora abre portas para o futuro. Quem não consegue ir de manhã, tem a noite nos shoppings, no Parque e no Pátio Belém, ou até no Tribunal de Contas.
Ana Júlia, uma das voluntárias que coordenam a recepção no Umarizal, limpa o suor da testa com as costas da mão. O calor de Belém aperta, mas o braço não cansa. Ela já recebeu de tudo hoje.
“Tem gente que traz o objeto e conta a história. 'Foi o computador do meu filho quando ele foi passar na faculdade', a senhora falou agora pouco. Ela tchauzou, beijou a caixa e saiu. Parece que ela tá se despedindo de uma fase, né? É bonito a gente ver o valor que as coisas têm pra elas. Não é jogar fora. É passar adiante”, diz Ana, enquanto anota a doação na ficha.
A tarde avança e o sol começa a baixar, mas o fluxo continua. Carros param, bicicletas passam carregando gabinetes. É uma corrente humana movida pelo desejo de ver o outro se levantar. No final do dia, todo aquele amontoado de fios e telas, que parecia fim de linha em algum escritório, vai se transformar em laboratório, em sala de aula, em primeiro emprego.
Robson volta para o carro. O porta-malas está vazio, o carro está mais leve, e talvez por isso ele ande um pouco mais devolver na volta para casa. Deixa para trás o peso que não lhe servia mais, sabendo que aquele peso agora vai sustentar o aprendizado de alguém que, talvez, nem tenha carro para estacionar. A roda gira, e a cidade fica um pouco mais humana.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



