Mulher opera rolo compactador em obra no Tocantins e supera preconceitos
Há nove anos no ofício, Sandy Marciele Ferreira Santos transformou o medo em habilidade e encontrou dignidade ao comando de máquinas pesadas em Paraíso do Tocantins.
Sandy Marciele Ferreira Santos, 28 anos, sobe os degraus de metal da cabine amarela como quem entra na nave de um hábito antigo. O dia em Paraíso do Tocantins começa com o sol ainda baixo, mas o calor já promete. Ela ajusta o boné, limpa o vidro com a palma da mão e senta-se no banco do operador. Lá de cima, o mundo parece menor, mais organizado, e o barulho do motor diesel é a música que vai acompanhar as próximas horas.
Ela está aos comandos de um rolo compactador, uma máquina de várias toneladas desenhada para amassar o chão e torná-lo plano. Mas ali, entre a alavanca de cambio e o volante largo, Sandy encontra uma delicadeza que escapa aos olhos apressados de quem passa pela BR-153. Não é apenas força bruta; é o tato de quem sabe a pressão exata para não quebrar o asfalto que ainda está curando. O peso da máquina desce pelo seu corpo, vibra nos pés, e ela responde com firmeza, sem afobação.
Natural de Sergipe, Sandy carrega no sotaque o traço de quem atravessou fronteiras. Há oito anos trocou o litoral pelo cerrado do Tocantins, acompanhando o marido, também operador. Foi ele quem lhe estendeu a mão – ou melhor, quem lhe apontou a escavadeira e disse para tentar. No começo, o medo era um passageiro constante na cabine. A máquina balançava, a lança subia e descia, e ela se sentia pequena diante daquele gigante de ferro.
"Eu comecei primeiro com medo. Meu esposo foi me incentivando e me ensinou. Comecei com a escavadeira hidráulica", conta ela, lembrando dos primeiros dias. O aprendizado não foi de livro; foi na pele, no suor do rosto, na calibração do ouvido para o ronco do motor. Aos poucos, o medo foi dando lugar à confiança. O balanço que antes assustava passou a ser a leitura do terreno. O "bate de frente" com o obstáculo deixou de ser susto para vir parte do ofício.
Hoje, completam-se nove anos de profissão. Nove anos de poeira, de graxa debaixo da unha, de almoço rápido na sombra da caçamba. Nove anos provando que um espaço majoritariamente masculino pode ser habitado por mãos femininas sem perder a força. O vídeo que viralizou nas redes sociais mostra apenas alguns segundos dessa rotina, mas bastou para que centenas de pessoas parassem a rolagem para ver uma mulher sorrindo ao volante de uma máquina pesada.
Há uma certa graça nisso tudo. Os comentários na internet falam de representatividade, de quebra de paradigmas, e é justo que assim seja. Mas Sandy olha para a tela do celular com um sorriso meio tímido, como quem não entende muito bem o alarde. Para ela, aquilo é apenas o trabalho de terça-feira. É o pão de cada dia, digno e honesto, conquistado a muitas mãos. O respeito no canteiro de obras não se ganha com likes, mas com a passada correta no asfalto.
"Hoje em dia não tenho mais medo não. A gente bate de frente", diz ela, com a simplicidade de quem resolveu as dúvidas na prática. A frase vale para a brita, vale para a vida. O medo diminui quando a gente se aproxima, quando se senta no banco do motorista e assume a direção. É uma lição que não precisa de púlpito para ser entendida.
Lá fora, o sol já está alto em Paraíso. A obra avança, o caminhão despeja a carga nova e Sandy faz a máquina recuar para mais uma passada. O rugido do motor abafa o trânsito lá embaixo. É um barulho de construção, de progresso lento e seguro. Ela olha para frente, para o horizonte plano do Tocantins, e puxa mais uma vez a alavanca. O rolo avança, e o chão fica pronto.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



