Com campo e cidade, Arraiá Delas celebra o Acre feminino em festa junina
Comidas típicas, artesanato e música marcam a 4ª edição do evento que reúne agricultoras no Lago do Amor este fim de semana.
O cheiro de queijo coalho na brasa compete com o perfume do jasmim ao cair da tarde no Lago do Amor. É Dona Francisca, de Senador Guiomard, que controla o fogo com a experiência de quem já viveu muitas secas e muitas chuvas na roça. Ela gira os espetos com calma, enquanto o fogo crepita e tinge de laranja o crepúsculo de Rio Branco. Ao lado, a filha arruma a banca de crochê, onde as toalhas de mesa combinam com as almofadas em tons de buriti, feitas uma a uma nas horas vagas da lida com a terra. É na fumaça desse encontro que se cozinha a verdadeira alma da 4ª edição do Arraiá Delas.
Não é apenas uma feira de junho com bandeirinhas e fogos de artifício. O Arraiá Delas é um corredor vivo onde o campo invade a capital do Acre sem pedir licença, ocupando o asfalto com a voz das agricultoras e o colorido da produção que sai das margens do Acre e do Purus. São mais de sessenta mulheres espalhadas pelo gramado, donas de pequenos negócios que trazem na bagagem o excedente da colheita e a criatividade que brota no meio da floresta.
Entre as bancas, o visitante encontra de tudo: desde o mel de abelha jandaíra, doce e encorpado, até a farinha-d'água branquinha, torrada no tacho de barro, que faz o pirão first-right. Tem bolo de macaxeira com recheio de cupuaçu, pamonha de milho verde amarrada com capim e o tacacá quente, servido na cuia própria, com tucupi que arde na língua e jambu que faz a boca formiguar. São sabores que não se encontram nos supermercados de geladeira branca, sabores que têm cara de chão de terreiro e história de família.
A força do evento vem do Movimento de Mulheres Camponesas, que reúne empreendedoras de Bujari, Plácido de Castro e da própria capital. Elas deixam a enxada e a roça por alguns dias para ocupar o espaço de venda e de fala. A ideia é simples e revolucionária ao mesmo tempo: aproximar quem planta de quem come, mostrando que a economia do Acre gira também em torno das mãos femininas que sustentam a agricultura familiar.
A trilha sonora do fim de tarde não vem de caixa de som potente distorcendo o ritmo. É o ao vivo de sanfona e zabumba que marca o ponto da quadrilha junina. As crianças, descalças no gramado, correm com balões de papel colorido, enquanto as mães negociam o preço da banana e trocam receitas de doces de leite. O clima é de puxirum, de trabalho compartilhado que vira celebração. Não tem a ostentação das festas de shopping centers; aqui o brilho vem do sorriso de quem conseguiu vender a produção da semana e ouvir um elogio sobre o próprio artesanato.
O Arraiá Delas tomou conta do Lago do Amor e segue até este domingo (31), das 17h às 22h. A expectativa é que o espaço receba mais de 2,5 mil pessoas ao longo dos três dias de programação, um público que busca conexão com as raízes locais longe das importações do Sul.
Se você está na capital acreana e sente falta daquele gosto de infância ou de uma comida feita com tempo e paciência, o caminho é ir ao encontro dessas mulheres. A entrada é franca e o convite é para se deixar levar pelo cheiro de queijo na brasa e pelo som da sanfona. Leve sacola vazia e fome de história.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



