Arraiá da Prefeitura reúne 30 grupos em Macapá nesta semana
Festival começa nesta quinta na Praça Jacy Barata Jucá com quadrilhas tradicionais e estilizadas disputando prêmios em dinheiro.
O cheiro de milho verde assado invade a esquina da Praça Jacy Barata Jucá antes mesmo do sol se pôr. É o sinal de que Macapá parou para o forró. Edvaldo da Silva, de 45 anos, senta no banco de madeira para amarrar a bota de couro grossa. Ele é o marcador da Quadrilha Raízes do Araguari, um dos 13 grupos tradicionais que entram na arena do 5º Arraiá da Prefeitura nesta quinta-feira (11). Enquanto ele afina a voz para gritar o primeiro "anavam", o som surdo da zabumba do grupo vizinho faz o peito estremecer, antecipando a disputa que vai tomar o centro da capital até o domingo (14).
O festival junino de Macapá é mais do que uma festa de São João; é uma divisão de águas cultural. Na Praça Jacy Barata Jucá, o asfalto se transforma em palco para 30 grupos que dividem opiniões e público. De um lado, a tradição rija: 13 quadrilhas que defendem o passo simples, o figurino de chita feito à mão e a narração oral do casamento na roça, sem muito luxo, mas com muita alma. Do outro, o espetáculo: 17 quadrilhas estilizadas que chegam com coreografias complexas, adereços de fibra de vidro, enfeites de paetê e narrativas teatrais que beiram o circo. É a briga do "pé-de-serra" contra o "teatro de rua", e o público aplaude de madrugada.
Edvaldo carrega a tradição no corpo. Nascido no interior do Amapá, ele aprendeu a dançar vendo o pai tocar sanfona nos fundos de quintal. Há três décadas, ele trocou a roça pela cidade, mas nunca abriu mão da autenticidade. "A quadrilha tradicional é o documento da nossa história. Não precisa de brilho, precisa de sentimento", diz ele, ajustando o chapéu de palha. Para seu grupo, o prêmio de R$ 7 mil oferecido pela prefeitura é um incentivo, mas a verdadeira vitória é ver os jovens aprendendo a respeitar a memória dos avós que migraram do Nordeste para a Amazônia.
Já nas alas das estilizadas, a ansiedade é outra. A bailarina Beatriz Souza, de 22 anos, passa verniz nas unhas enquanto espera o ensaio geral. Ela integra uma das 17 equipes que competem na categoria onde o bolão chega a R$ 10 mil. "A gente estuda muito, ensaia seis meses por ano. É uma mistura de dança de salão com teatro", explica Beatriz, cujo figurino pesa cinco quilos e brilha a cada foco de luz. O desafio das estilizadas é contar uma história em oito minutos, usando o corpo como único texto, enquanto a bateria local impõe um ritmo que não deixa ninguém parado.
A organização fica por conta da Fundação Municipal de Cultura (Fumcult), que este ano promete uma avaliação rigorosa. Jurados sobem em passarelas para analisar desde a sintonia da bateria até a evolução do casamento caipira. O júri busca equilíbrio: valorizar a técnica das estilizadas sem sufocar a espontaneidade dos tradicionais. "Macapá tem uma identidade junina única. Somos amazônicos, mas dançamos o nordeste. Isso tem que aparecer na pista", avalia um dos coordenadores do evento.
A programação tomou conta da praça. Barracas de comida foram montadas desde o começo da semana, exalando o aroma de munguzá, canjica e bolo de milho. O ponto de tacacá da Dona Maria, que funciona ali há 20 anos, promete atendimento especial durante os dias de festa. A praça vira um reduto de comidas típicas e de memórias afetivas, onde famílias inteiras se encontram após o trabalho para ver a disputa e comer um milho na mão.
O clima é de expectativa. Nas redes sociais, os grupos trocam provocações e divulgam ensaios. A tradição, que parecia adormecida em alguns bairros, ganha nova vida com as disputas, revelando que a cultura junina no Amapá não só sobrevive como se renova a cada junho, misturando o cheiro da chuva que cai no final da tarde com o pó de giz da quadra de dança.
O 5º Arraiá da Prefeitura começa nesta quinta-feira (11) e vai até o domingo (14), sempre a partir das 16h, na Praça Jacy Barata Jucá, centro de Macapá. A entrada é franca. Quem quiser garantir lugar na arquibancada e provar o melhor milho da praça, o segredo é chegar cedo e levar cadeira de braço — a festa vai até a madrugada, e o forró não perdoa quem tem sono cedo.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



