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Nortícia CulturaPrazeres da Mesa 2026

Belém é eleita a melhor experiência gastronômica do Brasil em premiação nacional

Com mais de 43 mil votos populares, a capital paraense superou outros destinos; chef Saulo Jennings também é homenageado pelo conjunto da obra.

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Karina Pinheiro
Pará · AM
10 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 574 palavras
Cuia de tacacá fumegante servida sobre mesa de madeira rústica com jambu e camarão seco.
Com mais de 43 mil votos populares, a capital paraense superou outros destinos; chef Saulo Jennings · Foto: Redação Nortícia

O cheiro de tucupi fervendo invade a calçada da Creperia no final da tarde. É aquele aroma ácido, levemente picante e terroso que, sozinho, já diz: estamos em Belém. A cidade não se explica apenas pelos mapas ou pela geografia dos rios; ela se explica, sobretudo, pelos sabores que puxam a gente para a mesa. Não é à toa que a capital paraense acaba de ser eleita a "Melhor Experiência de Turismo Gastronômico" do Brasil pelo prêmio Melhores do Ano da Gastronomia 2026, da revista Prazeres da Mesa. O troféu, que chegou na terça-feira (9) vindo de São Paulo, é menos uma novidade para nós e mais um certificado de algo que todo paraense já carrega na memória afetiva: aqui, a comida é cultura viva, não apenas restaurante.

O prêmio, que é o único do gênero a contemplar todo o território nacional, não saiu de uma escolha fechada de críticos com paladares exigentes. Ele veio do povo. Foram mais de 43 mil votos válidos no site da publicação, um número que traduz a força do reconhecimento popular. Quando o turista vota em Belém, ele não está apenas elegendo um destino farto; ele está retribuindo o encantamento de provar um açaí sem granola pela primeira vez ou sentir a dormência na língua provocada pelo jambu no tacacá. É o reconhecimento de que a nossa culinária dialoga, olha no olho e abraça.

Dividindo os holofotes com a cidade está uma figura central dessa narrativa: o chef Saulo Jennings. Ele também foi premiado pelo conjunto da obra, uma homenagem justa a quem dedicou a vida a tirar a culinária amazônica do gueto do "regional" e elevá-la à categoria de haute cuisine sem, nunca, perder a alma. Saulo é o cara que levou o tacacá para o camarim de Mariah Carey quando a pop star esteve por aqui, um gesto que resume a missão dele: mostrar que nossos ingredientes têm brilho próprio nos palcos maiores do mundo. Sua trajetória é um testemunho de que a cozinha do Pará tem técnica, história e autoridade.

Mas o prêmio da Prazeres da Mesa vai além da gastronomia de chefs e restaurantes estrelados. Ele reverbera nas feiras livres, nas portas das casas onde se faz o maniçoba no fim de semana, nos "tacacazeiros" que trabalham antes do sol nascer. É a vitória da dona de casa que descasca o tucupi com a mesma maestra de um chef de sapatos brancos. O turista que vem para cá em busca dessa experiência não quer apenas comer; quer entender o território pelo prato. Quer saber de onde vem o pirarucu, como se colhe o açaí, qual é a lenda do guaraná. A comida aqui é porta de entrada para a Amazônia.

Belém, a "Cidade das Mangueiras", é agora oficialmente o melhor lugar do Brasil para se comer. Mas nós sabemos que esse título se constrói a cada manhã, no barulho da faca cortando o peixe no mercado, no fogo de lenha aceso nos quintais. É uma identidade que não se vende, se vive. O prêmio valida o trabalho de décadas de mãos que transformam a floresta em banquete.

Para entender por que Belém levou esse prêmio, esqueça os guias turísticos por um momento. Vá ao Ver-o-Peso numa manhã de domingo, sente numa banquinha de açaí e peça para colocar farinha-d'água e charque. Ou então, arrisque-se num bacuri doce ou num pato no tucupi bem quente. O sabor da cidade está aí, esperando o seu voto.

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◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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