Arraial Cultural na Gameleira define quadrilha que vai representar o Acre no Nacional
18 quadrilhas disputam o título estadual em Rio Branco, com vaga garantida para o Campeonato Nacional em Canaã dos Carajás, no Pará.
O cheiro de milho assado começa a tomar conta da brisa da Gameleira antes mesmo do sol se pôr. No Segundo Distrito de Rio Branco, o barulho da sanfona não é apenas trilha sonora; é o coração que bate forte no peito das 18 quadrilhas que preparam o passo do matuto. É na terra batida do Calçadão da Gameleira que o Acre faz do mês de junho algo mais do que uma data no calendário: é uma disputa de honra, tradição e muito brilho no 24º Concurso Estadual de Quadrilhas Juninas.
O Arraial Cultural, organizado pela Fundação Elias Mansour (FEM), acontece entre os dias 23 e 28 de junho e transforma o asfalto em um terreiro de festa amazônica. Não é só a caricatura do caipira de chapéu de palha que se vê nos postais de São João. Aqui, a quadrilha tem outro calço. O ritmo é fortemente marcado pela zabumba, o enredo bebe na história do seringal e a identidade visual leva o verde da floresta misturado ao xadrez das saias. É uma festa que olha para dentro, para a história da própria cidade, enquanto olha para fora, mirando a vaga no Campeonato Nacional da Confederação Brasileira de Entidades de Quadrilhas Juninas (Confebraq).
Quem levar o ouro no Rio Branco embarca direto para Canaã dos Carajás, no Pará, nos dias 11 e 12 de julho. É o Norte brigando contra o Norte. A expectativa nas agremiações é de semanas de preparo intenso. Nos bastidores, a costureira do bairro afina a máquina, medindo metros de cetim e colando lantejoulas uma a uma nas saias volumosas que precisam girar sem embaraçar. O marceneiro aperta o último parafuso no trio elétrico, e o mestre-sala repassa pela milésima vez o enredo que conta a saga do migrante que fez do Acre sua casa.
A Fundação Elias Mansour sabe que esse tipo de evento é catalisador da economia criativa local. Não é só movimento de barraquinha. É a renda que entra na casa do artesão que produz os chapéus de palha trançada, do vendedor de pamonha que vê a produção dobrar na semana, do jovem que encontra no grupo de quadrilha uma escola de disciplina e arte. O Arraial movimenta a cadeira da praça e o comércio formal de igual forma, criando um ecossistema onde cultura e economia caminham juntas pelo calçadão.
A noite de abertura, dia 23, traz o azougue da escolha das realezas. O Casal Mirim e a Rainha da Diversidade não são apenas coroas e faixas; são a cara da comunidade que arrasta a cadeira de praça para ver o desfile. A escolha é o termômetro da festa: se a multidão grita, a noite promete. Além da disputa de quadrilhas, o palco montado ao longo do calçadão recebe shows de artistas regionais, aqueles que tocam o forró pé-de-serra de verdade, sem playback, com suor no rosto e voz rouca de tanto cantar para o povo.
A competição na Gameleira é famosa pela técnica. Os juízes observam o alinhamento dos dançarinos, o sapateado sincronizado e a expressão teatral que precisa ir além do sorriso pintado. É teatro, é dança, é resistência cultural. O clima de Rio Branco em junho é traiçoeiro, ora um sol escaldante que derrete a maquiagem da caipira, ora aquela friagem repentina que pede vinho quente e blusa de lã, mas isso não intimida os foliões. A festa acontece sob o céu do Acre, comendo tacacá, mingau de milho e o que mais o barracão oferecer. É o momento em que o Segundo Distrito vira o centro da capital, e as ruas são tomadas por um colorido que foge do cinza do dia a dia. O som do pife e do zabumba ecoa pelas casas vizinhas, convidando até quem não queria ir para acabar entrando na roda.
O Arraial Cultural começa na terça-feira, 23 de junho, no Calçadão da Gameleira, Segundo Distrito. A entrada é franca e o concurso estadual rola até o domingo, dia 28. Quem quiser ver de perto o matuto acreano e torcer pela equipe que vai representar o estado no Pará, é chegar cedo para garantir lugar na arquibancada e se molhar na espuma da folia.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.


