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Arraial Flor de Cacto une tradição e ritmo na noite de Porto Velho

Em Cidade Nova, evento gratuito mistura quadrilhas, bois-bumbás e shows de Wanderley Andrade até o dia 12.

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Karina Pinheiro
Rondônia · AM
03 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 639 palavras
Bailarinos de quadrilha junina com vestidos coloridos ensaiam sob luzes de palco em Porto Velho.
Em Cidade Nova, evento gratuito mistura quadrilhas, bois-bumbás e shows de Wanderley Andrade até o d · Foto: Redação Nortícia

O cheiro de manteiga de garrafa queimando na frigideira avisa antes da música começar. No Campo 1º de Maio, em Porto Velho, a poeira da rua Xangrilá levanta com o primeiro ritmo da zabumba, e é ali, no meio do vapor do milho verde e do suor da dança, que o Arraial Flor de Cacto mostra a cara de junho em Rondônia. Não é apenas festa de São João; é o momento em que o bairro Cidade Nova para para ver o couro do Boi Marronzinho brilhar sob a luz dos postes.

O arraial, que abre as portas nesta quarta-feira (3) e se estende até o dia 12, é o maior palco gratuito da capital. Durante dez dias, o terraço de terra batida recebe de tudo: da disputa acirrada das quadrilhas mirins e adultas, onde o brilho do tecido compete com o carinho da costura, ao arrasta-pé pesado dos shows nacionais. É um calendário que não obedece apenas à tradição nordestina, mas que reiventra o ritual com o sangue amazônico de quem desceu a BR-319 e fez raiz em solo rondoniense.

Quem sabe contar essa história pela pele é Seu Raimundo Nonato, 58 anos, o “Brilhante” responsável pela manutenção do Boi Bumbá Diamante Negro. Há três décadas, ele tira o óculos, passa a mão no chifre de papelão e verniz e garante que a “brincadeira” saía perfeita. “O povo acha que é só fantasia, mas é memória. Cada bordado aqui conta uma história de quem veio do Maranhão, do Pará, do Ceará e se ajuntou aqui”, conta Seu Raimundo, enquanto ajusta a espelho que o boi vai usar no desfile de sexta-feira. Ele diz que o arraial é o único lugar onde o couro do boi não é couro de mercado, é couro de família.

Essa mistura de raízes é o que define a programação deste ano. A organização não limitou o espaço apenas ao forró pé-de-serra. No palco, o ritmo abre alas para o carimbó da Cia de Dança Acreditar e para a ginga da capoeira, lembrando que a festa junina do Norte tem mais cor e mais ginga do que a da matriz sertaneja. “A gente não faz o campo ficar igual ao Nordeste; a gente faz o Nordeste caber no nosso campo”, explica a produtora cultural Ana Paula, responsável pela curadoria dos shows locais como o Café com Leite.

Para a antropóloga Lúcia Helena, professora da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), o Arraial Flor de Cacto é um território de resistência cultural. “O nome já diz tudo: é uma flor que nasce no árido. O povo rondoniense pegou o elemento da seca que deixou no sertão e o transformou em festa na floresta. É uma demonstração de como a identidade não é estática, ela dança junto com o povo”, analisa a pesquisadora, que estuda os folguedos populares na região há mais de quinze anos. Ela ressalta a importância de manter a entrada franca para garantir a democratização do acesso à cultura.

A programação promete agitar as noites com atrações de peso. Nesta quinta, a expectativa é grande para o show de Wanderley Andrade, que traz o repertório que embala as festas de interior de todo o Norte. Na sexta, é a vez de Raied Neto, ex-Calcinha Preta, subir ao palco para comandar o forró eletrônico, misturando o emotivo com o pegadão. Mas o coração do arraial continua batendo forte nos concursos de quadrilhas, onde as agremiações Girassol e Rosas de Ouro prometem derramar muito brilho e confete na passarela.

O Arraial Flor de Cacto acontece no Campo 1º de Maio, Rua Xangrilá, no bairro Cidade Nova. A entrada é franca e a barraca de pamonha de Dona Francisca — aquela que coloca queijo ralado no final — fica logo na entrada, esperando pela visita. A festa começa às 19h e vai até a última pamonha acabar.

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◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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