Balsa perde controle e bate em barcos no porto de Miritituba, no Pará
Sem vítimas, acidente destruiu duas embarcações e atingiu construção no trapiche; empresa Rodonave ainda não se manifestou sobre as causas.
Seu Raimundo Nonato, 54 anos, carregador do trapiche do porto de Miritituba, apertava o copo de café de alumínio na mão enquanto olhava a cor barrenta do Rio Tapajós. Nesta quarta-feira (27), o silêncio da manhã da beira do rio foi quebrado pelo som de motor alto e acelerado. A balsa da Rodonave, que faz a travessia entre Itaituba e o porto, vinha na direção do cais, mas a velocidade não diminía.
Na margem, a expectativa virou susto. 'A gente gritou para o pessoal subir no trapiche, porque ela vinha em cima', conta Raimundo. O primeiro alvo quase atingido foi uma voadeira com três homens a bordo. O piloto do bote pequeno teve rapidez: acelerou em zigue-zague e escapou por pouco de ser engolido pelo casco da balsa desgovernada. A manobra salvou a tripulação de um naufrágio certo no meio das águas turbulentas da atracação.
O impacto foi inevitável. A balsa, sem frear, encostou bruscamente em duas embarcações que estavam atracadas e quietas no trapiche. Uma lancha de transporte regional e uma barcaça de carga menor ficaram prensadas. O som de madeira e fibra esmagando contra o concreto ecoou pela vila de pescadores. 'Esmagou tudo. Os barcos viraram caixotes de papel', descreve Raimundo.
Dona Francisca Alves, 48 anos, dona do mercadinho que fica a quinze metros do local do acidente, sentiu o chão tremendo. Ela estava organizando prateleiras de farinha quando a vibração derrubou potes de plástico. 'Pensei que era terremoto, mas quando olhei pela janela, vi aquele monte de madeira subindo e descendo na água', relata. Segundo ela, não é a primeira vez que manobras duvidosas preocupam quem vive e trabalha ali. 'O movimento é intenso, tem caminhão, tem grão, tem gente. O descuido não pode existir', reclama.
Além das duas embarcações destruídas, uma construção localizada na beira do trapiche — um galpão de apoio aos pescadores — levou um baque estrutural. Parte da parede de tijolos rachou com a pressão da água e do choque. O prejuízo material ainda está sendo contado pelos donos dos barcos, que dependem das lanchas para o sustento diário, fazendo o transporte de passageiros e mercadorias entre as comunidades ribeirinhas e a sede de Itaituba.
O porto de Miritituba é um dos principais polos logísticos do oeste do Pará. É por ali que passa a soja do Mato Grosso rumo ao Oceano Atlântico, mas também é a porta de entrada de quem vive da pesca e do comércio local. A travessia da balsa é um serviço essencial para milhares de pessoas. Quando uma falha mecânica ou humana deixa uma balsa à deriva, o risco é alto demais para um fluxo tão intenso.
Até o fechamento desta matéria, a Rodonave não emitiu nota oficial explicando o que causou a perda de controle. O silêncio da empresa incomoda os moradores que perderam seus barcos e os usuários da linha. A suspeita de falha nos comandos de navegação é levantada pelos próprios trabalhadores do porto, mas só uma perícia técnica poderá confirmar.
Os proprietários das embarcações atingidas já acionaram a Capitania dos Portos para registrar o Boletim de Ocorrência Fluvial. Quem sofreu danos materiais precisa manter os comprovantes dos reparos para tentar o ressarcimento junto à responsável. Passageiros e trabalhadores do porto que presenciaram irregularidades na operação das balsas podem registrar denúncias na Agência de Regulação de Serviços Públicos Delegados do Pará (Artesp) pelo telefone 0800 280 1000 ou diretamente na sede da Rodonave em Itaituba.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



