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Boa Vista batiza junho com recorde de 1,5 tonelada de paçoca de carne

Comida indígena virou patrimônio da capital; prato foi servido com banana e quebra marca mundial.

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Karina Pinheiro
Roraima · AM
18 de jun. de 2026
publicado
2 min
de leitura · 451 palavras
Montanha de paçoca de carne seca servida com bananas em praça de Boa Vista.
Comida indígena virou patrimônio da capital; prato foi servido com banana e quebra marca mundial. · Foto: Redação Nortícia

O pilão racha com o som de trovão na Praça Fábio Marques Paracat. Sob o calor de junho, dezenas de braços transformam 1,5 tonelada de carne de sol em uma massa unida, gordurosa e seca, que pede uma banana da terra para descer. Não tem amendoim aqui: esta é a paçoca de Roraima, batida no peito e no estômago, comida de resistência que virou cartão-postal e, nesta terça-feira (16), recorde mundial outra vez.

O painel digital da balança parou em 1.593,5 quilos. Era quase da noite, e a multidão no Centro de Boa Vista vibrou não só pelo número redondo, mas pelo que ele representa: a manutenção de uma herança indígena em escala industrial. A prefeitura confirmou que a paçoca, símbolo do Boa Vista Junina, superou a marca anterior em apenas 46,5 quilos — suficiente para renovar o certificado do Guinness e a fama da cidade como "capital nacional da paçoca de carne com farinha".

A receita é ancestral, mas a logística é pura festa junina. Toda a carne e a farinha vieram de produtores locais, um circuito curto que alimenta a economia da região. As três toneladas de banana que acompanharam o prato saíram de Mucajaí e Iracema, no Sul do estado. É o contraste que define o sabor local: o sal agressivo da carne de sol, a textura áspera da farinha e o doce macio da fruta, tudo misturado na mesma cuia.

Diferente da paçoca doce e pastosa do Sudeste, a roraimense é feita para combater o frio do amanhecer na floresta ou a fome da jornada. Historiadores locais traçam a origem direta para os povos indígenas, que dominavam a técnica de secar e pilhar a carne. O que era sobrevivência virou celebração. O prato completou 11 anos neste arraial e agora ostenta o título de patrimônio cultural e imaterial da capital, um reconhecimento oficial que afasta o ranço de curiosidade para firmar o lugar como território de identidade.

Na praça, a distribuição foi rápida. Assim que o juiz do Guinness validou o peso, as conchas começaram a servir. O povo fazia fila, plástico na mão, esperando o pedaço quente de história. É uma comida que não exige prato, nem talher, nem cerimônia. É dedo na massa, sujo de farinha, lambendo o polegar.

O Boa Vista Junina continua movimentando a capital. O arraial segue com programação musical e quadrilhas até o fim do mês no mesmo local. Se você está por lá e quer entender o gosto de Roraima sem cair em clichês, ignore o amendoim. Procure a banca onde vendem a paçoca com banana da terra, sente na calçada e coma como os nativos: devagar, sentindo o sal e o doce brigar, enquanto o forró toca ao fundo.

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◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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