Caprichoso anuncia primeira tuxaua trans na história de Parintins
Lup Moara será a primeira mulher trans a liderar o item Tuxaua, trazendo ancestralidade e representatividade LGBTQIAPN+ para o Bumbódromo em junho.
O som do maracá de Lup Moara ecoa com uma textura diferente nos galpões do Caprichoso. Não é apenas o ritmo sincopado que marca a entrada da tribo; é o peso histórico carregado nas penas da cocar que ela ajusta na testa, com a precisão de quem sabe que ali cabe um mundo. Enquanto os tambores da marujada ensaiam o retumbo grave que vai sacudir o Bumbódromo em junho, ela segura a lança e olha para o espelho. No reflexo, vê não apenas uma personagem do folclore, mas a primeira mulher trans a ocupar o posto de tuxaua na maior festa popular do Amazonas. É o início de um novo capítulo para o Festival de Parintins, escrito a ponta de maracá e resistência.
A escolha de Lup Moara pelo Boi Caprichoso para o ano de 2026 é uma quebra de paradigma que chega sutilmente, mas com a força de uma pororoca. O item Tuxaua, que sempre representou a figura máscula da liderança indígena, a voz que comanda a tribo e dialoga com a pajé, agora ganha uma nova camada de significado. Ao entregar o item para uma artista visual e performática trans, o azul e branco não apenas inova na estética; ele reescreve o código de pertencimento da festa. É a afirmação de que a liderança e a ancestralidade não têm gênero fixo, e que a cultura amazônica tem pele larga para caber todos os corpos que a amam.
Lup, torcedora do Caprichoso desde a infância, respira este momento com a certeza de quem cruzou uma fronteira. "O Caprichoso sempre foi meu espaço de acolhimento, respeito e pertencimento", conta ela, enquanto ajusta o torque no cabelo preto e liso. Para ela, assumir o item é levar a estética, a voz e a luta da comunidade trans para o epicentro do espetáculo. Não é uma presença de enfeite; é a presença de quem comanda, de quem fala alto. É a ocupação de um lugar que, por décadas, foi vedado, transformando a arena do Bumbódromo em um território de afirmação existencial.
O papel do tuxaua na narrativa do boi é vital. É ele quem apresenta a tribo, quem evoca os espíritos da floresta e quem segura o eixo de gravidade do espetáculo durante os minutos cruciais da apresentação. Colocar uma mulher trans nessa posição de mando é um ato político profundo, nascido de dentro da agremiação e não imposto de fora. O Caprichoso, ao fazer essa escolha, toca na ferida da ausência e a transforma em arte, mostrando que a diversidade é inerente às raízes que formam o povo do Norte. O boi azul e branco, historicamente ligado à aristocracia local e a um certo conservadorismo estético, surpreende ao abrir as portas para a vanguarda do corpo.
Nos ensaios, a imagem de Lup já impressiona. A pintura facial ganha traços que dialogam com o seu ativismo. O azul profundo da indumentária contrasta com a pele negra da artista, criando uma visualidade prometida ser marcante na noite de 27 de junho. A postura é ereta, o olhar firme. Quando ela sobe no cenário, o silêncio habitual que precede o canto de abertura da tribo ganha outra densidade. A expectativa não é apenas ver a coreografia, mas sentir a presença de quem está ali para representar uma comunidade inteira que, por muito tempo, assistiu à festa das margens, sem ser convidada a dançar no centro.
Estudiosos do folclore amazonense observam que o festival sempre foi um organismo vivo, nascido da miscigenação e da troca violenta e amorosa entre indígenas, nordestinos e caboclos. Se manter estagnado seria a morte da lenda. Ao atualizar a simbologia da tribo, o Caprichoso mantém o festival vivo e pulsante, conectado com as discussões de tempo presente sem perder a reverência ao ritual sagrado do boi-bumbá. Lup Moara entra para a história não como uma exceção, mas como a prova de que o futuro da tradição pode ser mais plural.
A estreia oficial acontece na sexta-feira, 27 de junho de 2026, no Bumbódromo de Parintins, o coração de madeira da cultura do Amazonas. É lá, sob as luzes que iluminam a cidade às margens do Rio Negro, que Lup vai ecoar o canto da tribo. Para quem for até a ilha, a promessa é de uma noite onde o som do maracá vai carregar não só a alegria da festa, mas o som da mudança. Quem vai nos 30 do 3, vai ver a história ser reescrita em tempo real, batida por batida.
O Festival de Parintins acontece de 27 a 29 de junho. Ingressos já estão à venda e a expectativa para a apresentação do Caprichoso é a maior dos últimos anos.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



