Jovens escritores da Amazônia transformam Agenda 2030 em contos de futuro
Realizado pela FRAM, concurso desafiou estudantes a misturar literatura e sustentabilidade em narrativas sobre o futuro da floresta.
O cheiro do papel puxa a memória de um tempo anterior às telas, mas a caneta nanquim de Larissa, 14 anos, riscando a folha em branco em uma sala de aula em Manaus, é muito atual. Ela escreve sobre um rio que não seca e sobre uma comunidade que não precisa sair de casa para ser feliz. É um texto cheio de adjetivos, mas com os pés enlameados na realidade do igarapé.
Larissa é uma das centenas de vozes que ecoaram na edição 2026 do concurso cultural Conta Um Conto, realizado pela Fundação Rede Amazônica (FRAM) em parceria com o Colégio Lato Sensu. O desafio lançado aos jovens de 11 a 17 anos parecia impossível de tão sério: transformar a Agenda 2030 — aquele conjunto de metas globais para salvar o planeta — em literatura com cheiro de mato e sabor de tucupi.
E eles conseguiram. Mais do que exercícios escolares de redação que passam de ano, os textos que chegaram à curadoria são relatos de um território que se vê no espelho. Não é a visão de fora, a do turista que acha a floresta intocada. É o olhar de quem mora na beira do igarapé, sabe o nome da árvore e sente na pele a falta de saneamento ou a alegria da festa de santo. Os temas da sustentabilidade — preservação ambiental, responsabilidade social, desenvolvimento sustentável — saíram dos relatórios frios de Brasília e entraram nas narrativas de ficção e memória.
Pensar a Amazônia pelo viés da literatura juvenil é uma aposta poderosa. Enquanto os adultos brigam em gabinetes sobre código florestal e verbas, esses garotos estão escrevendo sobre o futuro que querem herdar. Uns escolheram o realismo mágico, outros o conto de fadas amazônico, onde a heroína usa botas de borracha em vez de sapatinho de vidro. A formação cidadã aqui não é chato discurso de assembleia; é feita de verbo, substantivo e adjetivo.
Karoline Cunha, coordenadora de Segmentos da FRAM, conta que o processo de avaliação foi rigoroso. Uma equipe de educadores e especialistas leu cada linha procurando não o erro, mas o acerto: aquele detalhe que só quem é daqui conhece. A banca analisou a adequação ao tema, a estrutura narrativa, mas o peso maior foi a criatividade e a originalidade ao tratar a floresta como personagem, não como cenário passivo.
O concurso está na reta final, e a expectativa é grande para ver quais histórias vão se destacar. Mais importante do que vencer, porém, é o ato de escrever. Ao colocar a mão na massa, ou melhor, na massa de puba, esses estudantes estão garantindo que a nossa narrativa regional não se perca. A Amazônia do século XXI está sendo escrita agora, por mãos pequenas mas firmes, que não pedem licença para sonhar alto.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



