Bombeiros resgatam filhotes em meio ao fogo em Feijó
Dois cães foram encontrados assustados em terreno baldio e devolvidos à tutora sem ferimentos pela equipe do Corpo de Bombeiros.
Dona Sebastiana Silva, 42 anos, corre com o coração na mão pela cerca de fundo. O cheiro de fumaça já tomava a tarde de quarta-feira no bairro Pelé Campos, em Feijó, mas era outro cheiro que ela procurava: o cheiro de terra molhada e leite dos dois filhotes que sumiram.
O fogo pegou no terreno baldio, aquele pedaço de mato esquecido que todo mundo dizia que um dia ia pegar. E pegou. As chamas subiram altas, assustando os pássaros e chamando a atenção da vizinhança. Alguém ligou 193. O Corpo de Bombeiros de Feijó chegou rápido, mas para o fogo, óbvio. Para a Dona Sebastiana, o incêndio era menor do que o desespero de saber onde estavam Totó e Pipoca.
Os bombeiros, homens acostumados ao calor extremo e ao peso do equipamento, estavam lá com as mangueiras, combatendo o avanço do vermelho pela vegetação seca. Mas o olhar treinado de um deles percebeu o movimento perto de um pé de acerola. Não era vento. Era tremedeira. No meio da fumaça densa, que prendia a garganta e impedia a visão, dois pares de olhos assustados refletiam o laranja das chamas. Eles estavam encolhidos, sem para onde correr, presos na própria curiosidade de cachorro.
Não houve reunião, nem ordem de comando. O bombeiro deixou a mangueira por um segundo, abriu caminho na cinza quente e estendeu a mão. Um primeiro filhote veio tremendo, o segundo seguiu. Ele os passou por cima da cerca, para longe do alcance das brasas, e só então voltou a atenção para as chamas que ainda devoravam o mato.
"Eu já tava chorando, achando que tinha virado cinza. Quando o bombeiro chegou com eles no braço, foi como se tirassem um peso das minhas costas", conta Dona Sebastiana, sentada na varanda de madeira, com um cachorro no colo e o outro lambendo o seu chinelo. A vizinhança parou o serviço para olhar. Em dias de tanta notícia dura na Amazônia, ver um homem de farda parar o combate a um incêndio para salvar duas vidas pequenas fez a gente lembrar do que realmente importa.
A operação seguiu até o fogo apagar totalmente. O reforço chegou, as técnicas de combate foram aplicadas com precisão técnica. Mas para Dona Sebastiana, o trabalho tinha terminado no momento em que recebeu aqueles corpinhos quentes de volta, sujos de fuligem, mas inteiros. A religiosidade do povo do Norte não mora apenas nos altares; morra nesse gesto de proteção ao mais frágil.
A noite cai suave sobre Feijó. O bairro volta ao silêncio, interrompido apenas pelo latido de dois filhotes que, naquela noite, vão dormir com mais certeza de que são amados.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



