Ex-detento cursa medicina no TO a 2 mil km da família para realizar sonho
A 2.200 km da esposa e filhas, ex-detento de 47 anos estuda na UFNT e dá palestras em presídios enquanto se prepara para o internato.
Wallace William da Costa, 47 anos, acende a luz do quarto em Araguaína antes das cinco da manhã. O silêncio é absoluto, quebrado apenas pelo bater do coração e o farfalhar das páginas pesadas de anatomia e clínica médica. Ele ajeita os óculos no rosto, toma um gole de água fria e mergulha nos textos. Lá fora, o Tocantins ainda dorme sob o manto escuro, mas dentro daquele aposento modesto, a batalha pelo futuro começou há horas.
Há 2.200 quilômetros de asfalto e poeira separando esse estudante do oitavo período da Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT) das mulheres que dão sentido à sua vida. A esposa e as quatro filhas ficaram para trás, em uma cidade de Minas Gerais que ele pede para não ser nomeada. É um silêncio necessário, um escudo construído para proteger a família do preconceito que ainda teima em perseguir quem tentou recomeçar. Desde que cruzou a porta da universidade, Wallace vê as filhas e a mulher apenas nas férias, um preço alto que ele paga sem reclamações, saboreando o sonho que está prestes a realizar.
A rotina de um homem de quarenta e sete anos em meio a calouros de vinte anos é densa, carregada de uma dignidade silenciosa. Há uma calma nele que só vem de quem já olhou para o fundo do poço e decidiu escalar as paredes sem corda. O internato começa em julho, trazendo consigo a promessa do jaleco branco para cobrir as cicatrizes do passado. A memória da prisão, em 1997, por tráfico de drogas, não é uma mancha que ele tenta esconder, mas o chão firme onde finca os pés para não tropeçar de novo. Foi dentro do sistema que ele aprendeu que a vida pode ter outra cor.
Quando não está nos bancos da faculdade, Wallace volta aos portões. Não como visitante comum, mas como testemunho vivo da possibilidade de retorno. Ele entra em presídios para falar com homens que ocupam o lugar que ele outrora ocupou, levando palavras que não são de lástima, mas de experiências. As palestras são menos sobre técnica e mais sobre humanidade, sobre o exercício diário de não desistir. Ele olha nos olhos daqueles homens e muitas vezes vê o seu próprio reflexo de anos atrás. A medicina, para ele, não é apenas uma carreira de elite; é o instrumento de cura das feridas da alma, tanto quanto do corpo.
A saudade é uma companheira de quarto constante e silenciosa. No fim do dia, quando os livros são fechados e o cansaço físico aperta, é a memória da família que povoava seus pensamentos. Não há espaço em seu discurso para a glória pessoal ou para a vaidade de ter superado as estatísticas. "Minha maior conquista é minha família, é por elas que eu prezo. É por elas que eu saio de tão longe pra estudar, por elas, e melhorar a vida delas. Tudo que faço, que passo, é por elas", diz Wallace. A voz é firme, mas o olhar se suaviza quando pronuncia essas palavras, como se recitasse uma prece antiga.
A manhã avança e o calor intenso do norte começa a subir sobre Araguaína. Wallace se levanta, arruma a mesa de estudos e se prepara para mais um dia de aulas. O diploma está próximo, tangível a cada prova superada, mas a verdadeira medicina que ele pratica é a do recomeço. Ele olha pela janela, talvez imaginando o rosto das filhas, e reza para que o sacrifício de hoje seja a colheita de amanhã. O sol nasce para todos, mas para Wallace, ele nasce agora com um sabor de esperança.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



