Ex-detento se forma em medicina no TO e espera reencontrar família no internato
Wallace William, de 44 anos, estuda na UFNT e busca fazer estágio em Minas Gerais para ficar perto da esposa e das quatro filhas.
Wallace William da Costa, 44 anos, para a leitura do livro de clínica médica na mesa da sala em Araguaína para ajustar a foto das quatro filhas na moldura simples de madeira. São elas, mais a esposa, que lhe dão o norte geográfico quando o mapa da vida parece dividido entre o Tocantins e Minas Gerais. Faz quase quatro anos que Wallace não cruza a porta de casa para um abraço de fim de semana; o reencontro acontece nas telas do celular, nas chamadas de vídeo que tentam compensar a ausência física.
O estudante está no oitavo período de Medicina na Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT). É uma etapa onde o estudo sai do papel abstrato e ganha a cor do corpo humano, a textura da pele, o ritmo dos corações. Em julho, começa o internato. É o rito de passagem onde o estudante vira médico de verdade, pisando nos corredores de hospitais e unidades de saúde, aprendendo a ouvir o silêncio dos quartos e a dor dos enfermos. Wallace espera essa hora com uma ansiedade que não é medo, mas um desejo antigo de ser útil.
Essa sede de cuidar nasceu em um solo árido e improdutivo. Em 1997, Wallace foi preso por tráfico de drogas. Naquele tempo, o futuro não era uma pergunta, mas uma sentença. Os dias se repetiam iguais atrás das grades, até que a educação surgiu como uma fresta de luz. Foi estudando dentro da prisão que ele descobriu que a mente também precisa de alimento, e que o conhecimento pode ser a chave que destranca portas que nem a justiça dos homens consegue abrir.
O caminho foi duro. Saiu da cadeia, entrou na faculdade, carregando a mochila pesada de quem tem um passado para explicar e um futuro para construir. Ele não esconde de onde veio, mas não deixa que o passado defina onde vai chegar. A medicina, para ele, não é apenas uma profissão de status; é uma forma de reparação, uma maneira de devolver à vida um pouco da dignidade que um dia ele perdeu, e de ajudar outros a encontrarem o caminho de volta. Há uma disciplina, entretanto, que ele guarda no coração com carinho especial: a psiquiatria. Talvez porque saiba que a saúde da mente é o primeiro passo para quem precisa reconstruir a própria história. Ele quer ser o médico que escuta, que vê no paciente não apenas um corpo doente, mas uma pessoa com uma vida complexa, cheia de idas e vindas, assim como a dele.
Há pouco tempo, a notícia veio como um bálsamo. Wallace passou em um concurso público para médico em Minas Gerais. O estado natal chama, e com ele a promessa de reencontrar a esposa e as filhas. Mas para assumir a vaga, o diploma é obrigatório. E para o diploma, falta o internato. A burocracia, no entanto, coloca mais um obstáculo no percurso. Ele tenta uma mobilidade acadêmica para realizar metade do estágio em Juiz de Fora, tentando encurtar a distância que os separa.
"Estou tentando uma mobilidade para fazer 50% do internato em Juiz de Fora, mas ainda sem respostas da universidade. Estou ansioso mas também esperançoso, espero poder conseguir fazer pelo menos um ano perto da minha família", conta Wallace. A voz é firme, mas os olhos traem a saudade. Ele fala da família com a reverência de quem guarda um tesouro à distância. A esposa sustentou as esperanças nos momentos mais difíceis, e as filhas crescem, ele percebe, pelos relatos e pelas fotos, não pelo toque diário.
Enquanto a resposta da universidade não chega, Wallace continua o ofício de estudante. Dedica-se aos livros, prepara-se para o internato com a mesma seriedade com quem, um dia, teve que se preparar para a liberdade. Sabe que o tempo é um mestre paciente, e que as grandes viradas da vida muitas vezes começam com o silêncio de uma sala de estudo e a certeza de que o amor atravessa fronteiras.
A noite avança em Araguaína e Wallace fecha o livro de anatomia. A luz da escrivaninha continua acesa, iluminando a foto na mesa. No pensamento dele, ele já está em Juiz de Fora, já está atendendo o primeiro paciente, já está colocando a mesa para o jantar com quem ama. Enquanto isso não acontece, ele repousa a esperança no estudo, sabendo que a cura, antes de tudo, começa dentro de nós.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



