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Nortícia BoaO pedal do sonho

Tocantinense pedala 4 mil km até a Argentina com apenas R$ 50 no bolso

Willian Gomes saiu de Colinas do Tocantins com R$ 50 e já percorreu 4 mil km em direção a Ushuaia, guiado pela generosidade da estrada.

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Padre Bruno Sena
Tocantins · AM
02 de jun. de 2026
publicado
2 min
de leitura · 494 palavras
Ciclista empurra bicicleta carregada com bagagens em estrada de terra ao entardecer.
Willian Gomes saiu de Colinas do Tocantins com R$ 50 e já percorreu 4 mil km em direção a Ushuaia, g · Foto: Redação Nortícia

Willian Gomes, 26 anos, para a bicicleta na beira da estrada e olha o mapa que amassou no bolso da bermuda. Saiu de Colinas do Tocantins com apenas cinquenta reais e a certeza de que o mundo se abre para quem tem paciência. Já são oito meses de pedivela, um suspiro longo que atravessou o cerrado, subiu as serras de Minas e desceu o asfalto gelado do sul. Ele não pede carona. Quando a perna dói, ele para, estica o corpo e espera o ritmo voltar.

Amanhece e a primeira coisa que ele faz é enrolar o saco de dormir. O orvalho molha a barraca. Ele toma café com água quente e achocolatado, sentado num tronco caído. O silêncio da manhã é o melhor sermão que ele já ouviu. Deixa de Colinas o cheiro do cerrado em flor, os vizinhos que torcem o nariz para a loucura de um rapaz pobre querendo ver o mar gelado. Deixa também o conforto da cama quente, em troca da liberdade de não ter hora para chegar.

A estrada ensina a liturgia do pequeno. Não há pressa em Ushuaia, o fim do mundo. O que importa é o chão sob o pneu hoje. Willian cruzou oito estados brasileiros, pisou nas praias do Uruguai e agora corta os campos da Argentina. A comida que sustenta o corpo vem da generosidade de quem passa: um prato de macarronada numa fazenda, uma banana oferecida num acostamento, um café quente na madrugada fria. É a comunidade do acostamento que o sustenta.

"Eu achava que ia sozinho, mas a estrada é cheia de gente", diz ele, com a voz marcada pelo vento. No começo, o medo era o companheiro de viagem. Depois, o medo virou curiosidade. Conheceu outro ciclista que carregava a Bíblia na bagageira, um casal de uruguaios que vivia numa casa de madeira sem porta e homens que só sabiam falar com as mãos. "Saí de casa só com um sonho e R$ 50 no bolso. O resto foi graça que ia chegando", conta.

A aventura não é sobre conquistar distâncias, mas sobre se deixar conquistar pelo tempo. No Tocantins, ele deixou o quartinho dos fundos da casa da mãe. Levou a roupa do corpo, uma ferramenta de reparo e uma coragem que ele nem sabia que tinha. Quatro mil quilômetros já ficaram para trás. Faltam mais de três mil até a Terra do Fogo. O joelho esquenta, o sol queima, a chuva molha até o osso. Mas Willian pedala.

A bicicleta, agora carcomida pelo sal do ar, está encostada num poste de luz numa cidadezinha argentina. Ele se senta no meio-fio, tira os tênis de cadarço desfiado e pousa os pés descalços na terra. O céu fica violeta no entardecer, uma cor que ele nunca viu em Colinas. Ele sorri, come um pedaço de pão que ganhou na padaria da esquina e agradece em silêncio, sem fazer o sinal da cruz, apenas sentindo o vento bater de novo no rosto.

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◆ Repórter · Nortícia Boa

Padre Bruno Sena

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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