Projeto desidrata frutas amazônicas e gera renda para famílias no Acre
No interior do Acre, técnica de liofilização preserva nutrientes da fruta e permite que produtores vendam a produção que antes se percia.
Sebastiana Rocha, 56 anos, separa os cupuaçus na varanda da Associação de Produtores do Jordão. Com a faca afiada, tira a casca grossa e parte a polpa em cubos exatos, exibindo a prática de quem manuseia a fruta desde a infância. O cheiro ácido e doce invade a madeira velha do piso, misturando-se com a umidade do ar do final da manhã. Ela arruma os pedaços na bandeja de inox com cuidado, como quem organiza objetos sagrados.
Ali, no extremo oeste do Acre, o que antes apodrecia no chão da mata ou servia apenas de alimento para os porcos, agora atravessa o tempo. O projeto de liofilização e beneficiamento de alimentos, desenvolvido pelo Instituto Flor da Floresta, trouxe para a comunidade uma tecnologia simples e revolucionária: a desidratação a frio. O processo retira a água sem cozinhar o alimento, mantendo a cor, o sabor e os nutrientes que o rio e a floresta colocaram ali durante meses.
Até pouco tempo, o Jordão era uma ilha cercada de abundância por todos os lados, mas sem porta de saída. Sem estrada asfaltada que chegasse até ali e com o frete de barco custando o preço da safra, a maioria da produção se perdia. O produtor colhia, olhava para a montanha de fruta e sabia que não conseguiria vender. Era o ciclo antigo da Amazônia: riqueza podando no chão. O dinheiro que não entrava forçava a saída. Jovens partiam para Rio Branco ou para os garimpos ilegais, deixando as roças mais vazias a cada ano.
Quando o casal de médicos Marcela Korogi e César Pedigone chegou com a ideia, muitos olharam desconfiados. Um equipamento que congela e seca o alimento parecia coisa de outro mundo, distante da realidade da roça. Mas a lógica era profundamente evangélica, no sentido mais original da palavra: preservar a criação. Reuniram cerca de cinquenta famílias indígenas e ribeirinhas em torno da máquina. O projeto não prometeu o ouro da mineração, mas a dignidade do trabalho que permanece.
Sebastiana, que nasceu e cresceu seringueira, diz que aprender uma nova técnica aos cinquenta e poucos anos deu um novo ritmo à oração do dia. "Antes a gente colhia, vendia baratinho para o atravessador e ficava no prejuízo. Agora a gente beneficia aqui mesmo. O dinheiro volta para a comunidade, e a gente não precisa sair", conta ela, limpando as mãos na toalha de chita. O tom é de paz, não de vitória. É o alívio de quem sabe que os filhos podem comer do que plantaram.
O pó de cupuaçu, açaí e graviola, agora embalado com selo de qualidade, aguenta meses na prateleira sem precisar de conservantes. A floresta em pé começa a valer mais que a derrubada para o pasto. As mulheres da associação, que antes carregavam a fruta nas costas para vender na beira do rio, agora operam a máquina e controlam a venda. É uma economia de pequeno passo, silenciosa como o crescimento das árvores, mas regenerativa. Ela devolve ao homem do campo o valor do seu ofício.
No meio da conversa, um dos técnicos do Instituto ajusta a temperatura do liofilizador. O barulho é baixo, um zumbido constante que parece uma respiração. É o som da autonomia. Enquanto as bandejas entram no equipamento, Sebastiana olha para o quintal. Lá estão as árvores que ela conhece pelo nome e pela idade. O sol começa a baixar sobre o rio Tarauacá, banhando o pátio com uma luz dourada. O trabalho de hoje está feito, e o cheiro de fruta fresca permanece suspenso no ar da varanda, como uma promessa que não vai mais se perder no caminho.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



