Bombeiros salvam cachorro arrastado pela correnteza em Jacamim
Em meio ao isolamento por chuvas em Roraima, equipe da Defesa Civil resgata animal na comunidade indígena Jacamim.
O tenente Marcell Reis para de correr na beira do que restou da ponte e curva o corpo sobre a água barrenta. Em Bonfim, no extremo norte de Roraima, o rio Uraricoera não parece o mesmo rio de quinze dias atrás; ele é um animal furioso.
Na quarta-feira passada, o couro do animal — um cachorro de pelo curto e marrom — escorregou na margem e foi levado. Marcell viu. Ele e o sargento João Henrique Costa Silva estavam ali, na comunidade indígena Jacamim, exatamente para isso: para fazer a travessia que a ponte, arrastada pela enchente, não permite mais.
Eles correm. Não corre para vencer, corre para chegar. A água bate nas vigas de madeira com um som surdo. O cachorro boça, apanha ar, desaparece entre as ondas. O sargento desce pela estrutura, estica o braço além do seguro. A mão agarra o pelo. Puxa.
Jacamim vive dias de isolamento desde o fim de maio. São mais de novecentas pessoas de um lado e o resto do mundo do outro. O alerta amarelo do Inmet paira sobre a região, prometendo chuva de até 50 milímetros por dia e ventos que sacodem as palmeiras. Mas ali, naquele segundo, o mundo se resumia a um cão se debatendo contra a força da natureza.
"Ele não teve força para enfrentar a correnteza, que começou a arrastá-lo. Como a água estava muito forte, o cachorro não conseguia se manter", recordou o tenente Marcell, ainda com o cheiro de rio na farda.
O animal chegou à margem ofegante, tremendo. Não latiu. Apenas se encostou às botas de borracha dos homens que o tiraram do fundo. Ao redor, a fila de moradores esperava a sua vez de atravessar a correnteza, sob o olhar atento de quem sabe que a água tira, mas às vezes devolve.
Padre Bruno Sena
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



