Chopp com aroma de café movimenta estande na Rural Show, mas insumo é importado
Cervejaria de Rolim de Moura lança bebida com notas sensoriais de grão usando maltes torrados importados; aposta é valorizar produto sem encarecer a matéria-prima.
A Chopp Foxy, cervejaria sediada em Rolim de Moura (RO), aproveitou a 13ª edição da Rondônia Rural Show — principal vitrine de negócios agropecuários do estado — para lançar o 'Chopp Café Extra Forte'. O produto chama atenção pela estratégia de mercado baseada no aroma do café, mas o diferencial econômico está na formulação técnica: a bebida não utiliza o grão, empregando maltes torrados importados para simular o perfil sensorial. A escolha reduz o custo de matéria-prima e simplifica o processo produtivo, em uma aposta de diferenciação dentro da cadeia de cervejas artesanais, que já movimenta mais de R$ 8 bilhões anualmente no Brasil, segundo a Brasil Craft.
Para colocar em escala, enquanto a indústria de cerveja comum opera com margens de lucro apertadas e economia de escala, o nicho artesanal sobrevive de valor agregado e especificidades regionais. No entanto, Rondônia enfrenta um gargalo logístico que impacta diretamente o custo: a dependência de maltes importados, majoritariamente da Europa e da América do Sul. O frete para o Norte encarece o insumo em até 30% em comparação ao eixo Sudeste, obrigando produtores locais a repassar parte desse custo ao consumidor final ou otimizar a receita — é aqui que entra a substituição do café por malte especial.
Segundo Reíder Borges, sócio da Chopp Foxy, a decisão é puramente econômica e operacional. 'Na realidade, é o malte torrado que traz esse aroma de café', explicou o empreendedor, que migrou do setor de telecomunicações para a indústria de bebidas há dois anos. O uso de café na receita demandaria não apenas o insumo agrícola, mas também processos de infusão e controle de acidez que aumentariam o tempo de produção e o desperdício. O malte, por sua vez, já vem processado industrialmente para entregar exatamente aquele composto químico volátil que o consumidor identifica como 'cheiro de café'. É engenharia de produção aplicada à redução de custos.
O fato de o lançamento ocorrer na Rondônia Rural Show é simbólico. A feira tradicionalmente é dominada pelo agronegócio de commodities — soja, milho e gado — e por maquinário pesado. A presença de uma indústria de transformação de pequeno porte sinaliza uma tentativa de diversificação da matriz econômica local. Rolim de Moura, um dos polos cafeeiros de Rondônia, exporta principalmente café robusta/conilon. A ironia econômica é que, em uma feira celebrando o café local, o sucesso de uma bebida 'sabor café' venha justamente da não utilização do grão local, evidenciando a dificuldade de integração vertical da pequena agroindústria com a agricultura regional.
O setor de cervejaria artesanal no Norte ainda é incipiente se comparado a São Paulo ou Santa Catarina, estados que concentram a maior parte das microcervejarias nacionais. Enquanto o Sul-Sudeste conta com malterias nacionais próximas — reduzindo o Custo Brasil logístico — o produtor rondoniense trabalha com estoques de longo prazo e alto capital de giro imobilizado em inventário. A aposta da Chopp Foxy é ganhar escala na feira para diluir esses custos fixos.
Especialistas apontam que o futuro do setor na região depende da integração. Se houver malterias locais ou o uso de cevada cultivada no próprio estado — tecnologia ainda em teste pela Embrapa — a margem poderia subir. Por ora, a estratégia é inovação de produto em um ambiente de oferta de insumos restrita. 'O pessoal tem essa curiosidade', resume Borges sobre a aceitação do público. A curiosidade é o primeiro passo para a demanda; a sustentabilidade do negócio dependerá da capacidade de manter o preço competitivo em um mercado onde o chopp encarecido tem barreira de entrada clara.
A expectativa da cervejaria é que a visibilidade na Rural Show converta-se em contratos de fornecimento para bares e restaurantes de Porto Velho e região. Os próximos indicadores de desempenho do setor regional devem surgir no segundo semestre, com o balanço anual da Abracerva (Associação Brasileira de Cerveja Artesanal), que deve mostrar se o Norte consegue crescer acima da média nacional de 15% mesmo com o frete penalizando a conta de energia do produto.
Renato Lobo
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



