Enchentes isolam comunidades Macuxi em Normandia e deixam famílias sem água
Tuxaua Valdina Silva relata desespero na noite em que as águas invadiram a aldeia Macaco, no norte de Roraima, onde famílias estão há uma semana sem energia e água potável.
O rio não pediu permissão. Na comunidade Macaco, no extremo norte de Roraima, a água subiu com um estrondo que a tuxaua Valdina Silva, de 52 anos, diz nunca ter ouvido em suas décadas de vida naquela terra. Não era apenas o som da chuva batendo no zinco, mas o barulho da terra cedendo lugar à enxurrada que engoliu as casas da aldeia Macuxi em uma noite escura e sem luz.
Faz uma semana que as águas invadiram os quartos e os roçados, deixando a comunidade Macaco e as aldeias vizinhas — Santa Cruz, Serra Grande e Jibóia — transformadas em ilhas no meio do Lavrado roraimense. O que antes era estrada de acesso virou leito de rio, e o isolamento trouxe consigo a falta do mais básico: água potável para beber, comida no prato e a energia que sequer havia retornado antes da tragédia.
Valdina relembra que o sofrimento começou antes de o chão molhar de vez. A energia elétrica já estava sete dias fora, um silêncio técnico que apodreceu a merenda escolar guardada na geladeira e o pescado que as famílias tinham para os dias seguintes. "Gente desesperada, chorando, gritando", descreve a tuxaua sobre o momento em que perceberam que o barulho forte lá fora era a enchente chegando. A escuridão elétrica se somou à escuridão da tempestade.
A força das chuvas no município de Normandia superou as previsões habituais para este período do ano, um fenômeno que estudiosos do clima na Amazônia têm associado à intensificação de eventos extremos na região. Não é apenas um temporal; é a aceleração de um ciclo que torna a vida no campo, e especialmente nas terras indígenas, cada vez mais vulnerável às variações bruscas do clima. Normandia é hoje um dos sete municípios de Roraima em estado de emergência, uma classificação burocrática que esconde, na prática, o drama de quase duzentas pessoas desabrigadas e sem comunicação.
O governo do estado montou uma força-tarefa e prometeu o envio de ajuda humanitária para as áreas isoladas, enquanto a prefeitura acompanha o nível das águas com atenção. O socorro, no entanto, depende das condições do trânsito nas águas turvas, e a demora é medida na fome e na sede de quem aguarda na margem.
Na comunidade Macaco, o hoje é um tempo de limpar o lamaçal e tentar salvar o que o rio não levou. A lama, negra e pegajosa, marcou as paredes até a altura da cintura, um registro visual da altura que o sofrimento alcançou. Valdina olha para o rio que agora invade o quintal e espera que a água baixe o suficiente para que a vida possa retomar o seu fluxo, lento e constante, como o curso de um igarapé que, por enquanto, decidiu sair do leito.
Bianca Aroucha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



