Voz de Super-Homem e Mickey Mouse marca Comic Nerd 2026 em Rio Branco
Dublador Guilherme Briggs é atração de peso em Rio Branco, onde a Comic Nerd 2026 mistura memórias de infância e solidariedade este fim de semana.
O tom grave de Clark Kent ganha a umidade do Acre. No Ginásio de Esportes do Sesi, em Rio Branco, a voz que salvou o mundo dos desenhos animados nos anos 90 — aquela mesma que dublou Super-Homem, Buzz Lightyear e Optimus Prime — vai sair das caixas de som e ocupar o espaço físico, vibrando no peito de quem assistiu sentado no carpete da sala. Guilherme Briggs traz para o norte a memória sonora de uma infância compartilhada por brasileiros de Ponta Porã a Oiapoque.
A Comic Nerd 2026 não é apenas uma feira de fantasia; é um encontro de afetos. Neste fim de semana, a capital acreana vira o ponto de convergência de quem foi criado ouvindo "Ao infinito e além". O tema deste ano, "Gerações", ganha corpo nas figuras que desfilam pelos corredores: o pai que leva o filho vestido de Jedi, o casal que troca bottons de anime e a avó que curte a ansiedade do neto na fila para a foto com o ídolo. É um caldeirão onde o tempo se dobra.
Guilherme Briggs, o homem de mil registros, é o centro gravitacional dessa órbita. Ter a voz oficial do Mickey Mouse no Acre é um feito logístico que traduz a força da Associação de Nerds do Acre (Anac Nerd), a mente por trás da organização. Eles não querem apenas trazer estrelas; querem legitimar o consumo de cultura pop na Amazônia como algo sério, potente, digno de palcos grandes. A dublagem, arte de dar alma a desenho inanimado, encontra aqui um público que sabe de cor os timbres de cada personagem.
Nos bastidores, a equipe da Anac Nerd trabalha como um mecanismo de relógio suíço. Foram meses de negociação para trazer nomes que, muitas vezes, ignoram a vastidão do Norte. Ver o ginásio lotado é a vitória final desses organizadores que, durante anos, foram vistos como "crianças grandes" brincando de herói, mas que hoje movimentam a economia criativa do estado.
Mas o evento não vive só do passado. Enquanto Briggs representa a era do televisor de tubo, o streamer Willian Moreira Lemos Rodrigues, o Gordox, encarna a adrenalina em tempo real da internet. Com a capacidade de narrar batalhas virtuais em jogos como Counter-Strike e League of Legends, ele traz para o palco a dicção dos novos tempos, onde o herói joga com teclado e fone de ouvido. O contraste entre o dublador clássico e o narrador digital mostra como o "ser nerd" se adaptou, mas manteve a essência da paixão obsessiva.
O cheiro de maionese verde e o som de passos acelerados compõem a trilha sonora do evento. São esperadas 15 mil pessoas, um número que faz o ginásio parecer uma cidade dentro da cidade. No meio disso tudo, há uma organização silenciosa: a solidariedade. A entrada custa 1 kg de alimento não perecível, menos sal. Não é um ingresso, é um passaporte. O que sai de lá não é apenas diversão, é carga de alimentos para instituições filantrópicas de Rio Branco. O fanático de quadrinhos prova, mais uma vez, que o superpoder verdadeiro é a empatia.
Andar pelos estandes é viajar sem sair do lugar. Há gibis amarelados, bonecos ainda na caixa, camisetas estampadas com frases em japonês e a cacofonia de dialetos que misturam o sotaque acreano com o "otaku". A geografia do Acre se torna cenário para histórias que, em tese, acontecem em Tóquio ou Metrópole, mas que ganham um clima tropical de floresta.
A Comic Nerd 2026 acontece neste sábado (30) e domingo (31), das 9h às 20h, no Ginásio de Esportes do Sesi, em Rio Branco. Para entrar, basta levar o alimento e se dispor a acreditar, por algumas horas, que qualquer um pode usar uma capa.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



