Procissão de Corpus Christi transforma Centro de Rio Branco em altar a céu aberto
Há 30 anos, Deise Sali leva altar próprio para a procissão; tapetes de serragem coloriram o Centro de Rio Branco na noite desta quinta-feira.
O cheiro de tinta guache misturado à serragem fresca domina a esquina da Catedral. No chão quente do centro de Rio Branco, a cor não é apenas visual, é tátil. É uma camada de pó colorido que desmancha sob a sola do sapato, mas que, por algumas horas, transforma o asfalto em sacramento. Deise Sali, moradora da Base, conhece essa textura intimamente.
Corpus Christi no Acre é isso: a cidade que para para pisar no sagrado. Não é só a passagem do Santíssimo, é a construção do caminho que ele vai percorrer. Desde cedo, a manhã é de rachão e colagem, transformando serragem e TNT em tapetes efêmeros que descrevem símbolos da fé católica, desenhados para durar apenas o tempo de uma missa e uma caminhada.
Deise tem 30 anos de história nessa caminhada. Três décadas carregando não apenas a fé, mas o peso e a delicadeza de um altar que ela mesma confeciona. É um altar de mãos, feito em casa, que ela transporta até o centro para integrar o cortejo. "É o momento de fé, é você externar o que você tem no seu coração", conta ela, enquanto ajusta um detalhe da peça. "É você dizer assim: 'Senhor, eu te amo', internamente e externamente".
A programação culminou na noite desta quinta-feira (4). A missa solene na Catedral Nossa Senhora de Nazaré, iniciada às 17h, serviu de prélogo. O sol começa a baixar, o calor amainar, e o povo ocupa as calçadas. Há um silêncio respeitoso misturado ao murmúrio de orações quando a procissão se move. O som dos passos é a batida principal dessa liturgia urbana.
O ritual de criar e destruir os tapetes é uma metáfora poderosa da festa popular. Duam-se horas para compor o desenho perfeito, o pigmento escolhido, o recorte exato da serragem. O bispo, o padre, os fiéis passam, e a obra de arte vira pó novamente. É a beleza do efêmero que encanta quem faz e quem vê. Deise repete isso há 30 anos, e diz que todos os anos é uma "alegria renovada".
Não é uma festa apenas para turistas ou para o calendário eclesiástico. É um evento de pertencimento da cidade. O centro de Rio Branco, palco de tantas correrias e buzinas, devolve o espaço para o lento andar da devoção. As luzes da procissão iluminam os rostos, revelando uma identidade acreana que se mistura com o catolicismo trazido pelos seringais, mas recriado na poeira da rua.
No fim da noite, restam os traços de cor no asfalto lavado. A procissão acaba, mas a sensação de dever cumprido permanece no ar. A fé segue guardada no altar caseiro de Deise, pronta para ser montada novamente no próximo ano.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



