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Nortícia CulturaPatrimônio em Parintins

Vasilhame de 3 mil anos é encontrado intacto em sítio arqueológico de Parintins

Peça cerâmica descoberta na orla da cidade pode ampliar o conhecimento sobre os povos antigos da região.

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Karina Pinheiro
Amazonas · AM
04 de jun. de 2026
publicado
2 min
de leitura · 546 palavras
Mãos de arqueóloga segurando vasilhame de cerâmica antigo recém-retirado do solo em Parintins.
Peça cerâmica descoberta na orla da cidade pode ampliar o conhecimento sobre os povos antigos da reg · Foto: Redação Nortícia

O sol de Parintins castiga a nuca, mas a escavação é um exercício de paciência geológica. A arqueóloga Clarice Bianchezzi, 34 anos, limpa o suor da testa com as costas da mão suja de terra. O cheiro que sobe da trincheira aberta no sítio arqueológico da Companhia Têxtil não é de rio, é de tempo: aquele odor de barro úmido e compactado que espera milênios para ser revirado. Quando a ponta da espátula tocou a curva perfeita da cerâmica, a 80 centímetros de profundidade, o silêncio da equipe virou um sussurro reverente. Não era um caco, era um vasilhame inteiro, dormindo ali há talvez três mil anos.

A descoberta, feita na última quinta-feira (4), no coração histórico da cidade, traz à tona uma camada de Parintins que o folclore do Boi-Bumbá, com todo o seu brilho e ruído, muitas vezes cobre. É a cidade antes da cidade. O vasilhame, retirado quase totalmente preservado, é um testemunho mudo da vida doméstica dos povos que habitavam a região muito antes da divisão das terras ou das pranchas dos ensaios do Bumbódromo.

Clarice, pesquisadora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), diz que a mão treme um pouco, não de medo, mas de responsabilidade. "É o primeiro achado completo que a gente tem no sítio", conta ela, enquanto examina a superfície do barro. A peça tem um peso específico, uma textura que mistura argila local com cauixi — a espícula de esponja doce que dá resistência à cerâmica amazônica antiga. Imaginar a mão que o modelou, o fogo que o cozeu, o conteúdo que ele guardou — talvez um tucupi fermentado ou sementes guardadas para o plantio — é mexer no arquivo vivo da humanidade na floresta.

A conservação é um milagre. O solo da Amazônia é traiçoeiro para os restos materiais; a chuva, o calor e a acidez costumam transformar a cerâmica em pó em poucas gerações. Este vasilhame sobreviveu enterrado na orla, protegido por uma camada de sedimentos que o tempo não conseguiu corroer. Para a ciência, isso significa ouro. É possível entender a tecnologia de produção, a dieta e até a organização social daquele grupo. "Ele amplia o conhecimento sobre a ocupação humana na região", explica Bianchezzi. "Cada pedaço de barro é uma página de um livro que se perdeu".

O sítio Companhia Têxtil fica no Centro Histórico, um local que pulsa com o comércio e o movimento dos moradores. É um choque curioso pensar que, onde hoje passam ônibus e turistas procurando o melhor lugar para ver o festival, outrora havia aldeias silenciosas e o barulho do rouxinol. A arqueologia em Parintins tensiona o tempo, mostrando que a cultura popular de hoje tem o substrato de uma cultura material ancestral.

O vasilhame agora segue para laboratório, onde será submetido a exames químicos e de datação. Mas o buraco na terra permanece como uma cicatriz aberta na certeza histórica. Quem visitar Parintins nos próximos meses pode aproveitar para ir além do óbvio e caminhar pelo Centro, olhando para o casario antigo e imaginando o que jaz sob os pés. O Museu do Homem do Norte, em Manaus, continua sendo o melhor lugar para ver outros tesouros dessa grande civilização do barro, mas a partir de agora, Parintins tem um novo capítulo para contar sobre si mesma.

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◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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